Jornal Mundo Espírita

Setembro de 2019 Número 1622 Ano 87

A mediunidade esquecida

abril/2016 - Por Cezar Braga Said

O compromisso que um médium assuma com a educação das suas faculdades, sejam elas quais forem, não exclui, com raras exceções, a possibilidade de se constituir uma família, ter filhos e, simultaneamente, administrar estas duas preciosas frentes de trabalho que se desdobram no lar e na instituição espírita onde atua.

Embora os fenômenos mediúnicos ocorram em todo e qualquer lugar, exigindo discernimento, discrição e equilíbrio por parte do médium, dentro do lar somos chamados a exercer uma mediunidade diferente, nem sempre marcada por vidências, mas por evidências de que precisamos ser mais rígidos ou flexíveis, cobrando mais ou exigindo menos dos que compartilham conosco o ninho doméstico.

Frequentemente, nos maravilhamos com as variadas expressões mediúnicas, olvidando, muitas vezes, a mediunidade exercida pelos pais junto a prole e aquela de um cônjuge junto ao outro.

No livro Nos domínios da mediunidade, o Espírito Áulus dá um verdadeiro curso sobre as diferentes faculdades mediúnicas, ao longo dos trinta capítulos que constituem esta bela obra, tratando, no último deles, de uma mediunidade deveras esquecida ou, pelo menos, pouco lembrada em nossos círculos de ação.

O benfeitor espiritual cita que o lavrador é o médium da colheita; o artífice, o médium de preciosas utilidades;  o escultor,  o médium da obra-prima; os varredores, os médiuns da limpeza; o juiz,  o médium das leis;  mas,  o homem e a mulher, que fazem do matrimônio uma escola de amor e trabalho, tornam-se médiuns da própria vida.

Afirma ainda o nobre Espírito:

Além do lar, será difícil identificar uma região onde a mediunidade seja mais espontânea e mais pura, de vez que, na posição de pai e de mãe, o homem e a mulher, realmente credores desses títulos, aprendem a buscar a sublimação de si mesmos na renúncia em favor das almas que, por intermédio deles, se manifestam na condição de filhos.[1]

O livro, do Espírito André Luiz, traz importantes apontamentos, mas finalizá-lo ressaltando a importância desta mediunidade-doação, feita de tanta entrega, renúncia, disciplina e amor, faz com que redimensionemos a nossa maneira de avaliar os compromissos assumidos por um médium.

Não se é médium apenas nas tarefas da instituição religiosa que frequentamos. Somos médiuns no trabalho profissional, nas horas de lazer, quando dormimos, em viagem com a família, devendo em tudo tentar manter o equilíbrio, sem fanatismos ou permissividades que coloquem em risco o nosso e o bem-estar dos entes queridos agregados à nossa vida.

Há quem nunca encontre tempo para dedicar-se a alguma tarefa na instituição da qual se faz beneficiário e há também quem nunca abra espaço para estar com os familiares, em razão dos compromissos doutrinários.

Estas posições extremas refletem não apenas as dificuldades que alguém possa ter em administrar tais questões, mas podem indicar também, dependendo do contexto em que cada um viva, certo egoísmo, preguiça ou uma busca rápida pelo céu, face a uma neurose de perfeição ou consciência de culpa,  somente aplacada mediante trabalho ininterrupto, em casa ou no centro espírita.

Há momentos em que não conseguimos conduzir nossa vida como desejamos e, por isso mesmo, uma tarefa será bem feita em detrimento de outra, na qual, fatalmente,  deixaremos a desejar.

O importante é não perder de vista que podemos melhorar sempre, rogando o auxílio dos nossos amigos espirituais e fazendo a parte que nos compete para um melhor ajuste de nosso tempo, presença e dedicação, no lar e fora dele.

O Espírito Emmanuel, reforçando a importância da atuação do médium junto ao grupo consanguíneo, afirmou: O médium somente deve dar aos serviços da Doutrina a cota de tempo de que possa dispor, entre os labores sagrados do pão de cada dia e o cumprimento dos seus elevados deveres familiares.[2]

Nem o profissionalismo religioso, nem o exclusivismo de só atuarmos no lar, se temos uma organização familiar que nos permite estender um pouco mais o nosso afeto a outros espaços e corações.

O importante é a conciliação que nos traga uma paz relativa, atendendo aos sagrados labores que nos requisitam atenção, vigilância e dedicação.

Pais e mães, médiuns da vida, colaboradores magnânimos do mundo espiritual, corações que facultam não apenas o renascimento dos Espíritos no plano terreno, mas médiuns-evangelizadores que preparam as almas para o novo mundo que virá, a esses  médiuns esquecidos, o nosso preito de gratidão.

 

1. XAVIER, Francisco Cândido. Nos domínios da mediunidade. Pelo Espírito André Luiz. Rio de Janeiro: FEB, 2003. cap. 30.

2. __________. O Consolador. Pelo Espírito Emmanuel. Rio de Janeiro: FEB, 2000. item 404.

 

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