Jornal Mundo Espírita

Janeiro de 2022 Número 1650 Ano 89

A mediunidade de Tomas Tranströmer

setembro/2015 - Por Clayton Reis

Tomas Tranströmer, poeta sueco laureado com o Prêmio Nobel de Literatura de 2011, desencarnado a 26 de março do ano em curso, deixou-nos uma história de sensibilidade, coragem, resolução e a lembrança de uma alma extremamente refinada, que soube captar os acordes e as mensagens oriundas das esferas elevadas. Há vinte e cinco anos sofreu um Acidente Vascular Cerebral (AVC) que paralisou o lado esquerdo do seu corpo. O acidente não foi capaz de esmorecer-lhe o espírito, que se manteve resoluto durante o período restante da sua existência. Seus olhos sempre transmitiram bondade e interesse, segundo relata o repórter John Freeman, que foi entrevistá-lo em sua residência, pouco antes de sua desencarnação, aos oitenta e três anos, (Folha de São Paulo – 4 Ilustríssima – 29.03.2015- tradução de Clara Allain e ilustração de Paulo Pasta), na ilha de Runmaro, cerca de uma hora de Estocolmo.

Suas obras foram traduzidas para quase sessenta idiomas, ficando apenas atrás das de Pablo Neruda. Passou a infância e juventude na Irlanda do Norte e os irlandeses apelidaram-no de Transformer, indicando o respeito profundo que sentiam pelos seus escritos. Tomas via na poesia uma maneira de se orientar no mundo, uma maneira de tentar abordar o enigma, acrescenta Monica, sua esposa. Seus poemas, segundo Freeman, têm um poder psicológico profundo – são obras de um homem possuído. Ele alcança essa conexão através dos sentidos e do apagar gradual do eu que só busca seus próprios propósitos.

Vivendo em uma sociedade que rejeita o dogmatismo religioso, ele procurou desvencilhar-se dos ensinamentos da Igreja, qualquer que fosse ela, para explorar um mundo desconhecido sem as bússolas que bitolam o homem preconceituoso. Nesse sentido, Monica disse: acho que ocorreu uma transição de uma consciência religiosa básica para a fé.

Nessa linha de intelecção, Joanna de Ângelis1 assinala: Ao invés da proibição castradora e do dogmatismo irracional, agressivo à liberdade de pensamento e de opção, a religião deve favorecer a investigação em torno dos fundamentos existenciais, das origens do ser e do destino humano, ao lado dos equipamentos da ciência, igualmente interessada em aprofundar as sondas das pesquisas sobre o mundo, o homem e a vida.

O pesquisador literário Torbjorn Schimmidt, que organizou a edição sueca de Air Mail assinala: Eu diria que o enigma de Tranströmer é espiritual. Todavia, o próprio poeta, em um e-mail, chegou a afirmar que não era um místico, isso porque, se dissesse o contrário esse fato iria comprometer a qualidade e a liberdade da filosofia espiritualista contida em seus poemas. Por outro lado, o próprio Tomas ressaltou que sua experiência de vida é enigmática num sentido profundo: existem dimensões da vida que não podem ser captadas por uma mente puramente racional. Em nenhum lugar da obra de Tranströmer essa dualidade se torna tão pessoal quanto em Ostersjoar, que é uma espécie de genealogia espiritual e sensual musicada, diz o repórter.

Em carta a outro poeta, Tomas declarou: Às vezes, tenho a sensação de ter um dever a cumprir em nome de alguma consciência oculta. Por que preciso viver essa confusão constante, enxergar e ouvir todas estas coisas, o que significa? Eu, às vezes, encontro conforto no sentimento de que ALGUÉM, ou ALGO, quer que eu faça isso.

 Na realidade, poderemos afirmar que Tomas era, sem o saber, um médium sensitivo ou intuitivo. O conhecimento do Espiritismo como doutrina da razão e do conhecimento das verdades universais, que exerce poderosa força sobre nossas vidas, certamente permitiriam a Tomas conhecer o outro lado da vida e, por consequência, desvendar o enigma das trevas que o atormentou durante toda sua existência.

Diferentemente de Tomas, Victor Hugo, Arhur Conan Doyle e tantos outros poetas e escritores brilhantes encontraram na filosofia espírita razões existenciais, que igualmente os atormentavam antes de conhecer a doutrina de Kardec. Há tantas coisas maravilhosas em Tomas, diz o poeta norueguês Jan Erik Vold, que o conheceu e o traduziu por quatro décadas, mas uma delas é que ele sabe onde guardar as trevas.

Todas essas impressões, observadas pelos seus leitores e amigos, levaram o escritor sírio Adonis a afirmar: Quando falo em misticismo na poesia de Tranströmer, me refiro a uma visão que não divide a existência em duas categorias, a física e a espiritual, mas que vê a existência como sendo una e indivisível. Os depoimentos dessas pessoas revelam que Tomas foi um poeta comprometido com a realidade espiritual desconhecida que o atormentava, para concluir com uma realidade solar – a existência de algo desconhecido na dualidade espírito-matéria. (os destaques são nossos) O tormento do desconhecido ou daquilo que ainda não pode ser explicado pela ciência contemporânea, a existência do Espírito, torna-se, para Tomas, uma treva que deve ser guardada em locais inacessíveis ao leigo.

Somente homens de profunda sensibilidade como Tomas Tranströmer, Rudolf Eucken2,  Divaldo Pereira Franco, Francisco Cândido Xavier e outros que assumiram a nobre missão de desvendar o véu que nos separa da realidade espiritual, são capazes de captar as mensagens que emanam das esferas iluminadas. O que para muitos é misticismo, especialmente para aqueles que se recusam a ver a realidade dos fenômenos extrassensoriais desvendados por Allan Kardec, para outros, que primam pela evidência dos fatos pesquisados, ocorre a notória existência da vida pós-morte. Todavia, ainda há uma multidão de pessoas céticas, que preferem adotar a cômoda posição de não pretender desvendar o desconhecido, em face do dogmatismo de suas convicções. Realidade não tão desconhecida, senão para aqueles que se recusam a ver. Nesse caso, vale a advertência de Kant quando afirma: Se olharmos para o mundo como aparência, ele demonstra a existência de algo que não é a aparência. E, para descortinar novas verdades Hannah Arendt3 proclama que: Em outras palavras, quando o filósofo se retira do mundo dado aos nossos sentidos e faz meia volta (a periagoge de Platão) em direção à vida do Espírito, ele se orienta por este em busca de algo que lhe seria revelado e que explicaria sua verdade subjacente. Somente as pessoas despidas do dogmatismo irracional, serão capazes de captar as vibrações etéreas presentes no Universo e enxergar aquilo que os olhos vendados não conseguem ver. De acordo com essa ideia, na feliz expressão de Hannah Arendt4, olha para aquilo que, embora ausente (para os sentidos), está tão firmemente presente em nosso Espírito.

Como assinalou o repórter Freedman: Transtörmer foi um grande poeta porque encontrou uma forma de refletir sobre o infinito e se recusou a desviar o olhar. Mas uma das razões pelas quais pôde fazê-lo com tanta beleza reside no fato de que (como qualquer artista que canta melhor em dueto) ele não o fez – não o faz – sozinho. Ainda há pessoas, em nossa esfera planetária, que são capazes de desvendar o enigma da morte e, iluminar o mundo com as novas luzes da vida – uma esperança de regeneração da Humanidade e do planeta, para os melhores dias que se anunciam.

 

[1] FRANCO, Divaldo Pereira. O Homem Integral. Pelo Espírito Joanna de Ângelis. Salvador: LEAL, 1990. p. 57.

[2] EUCKEN, Rudolf (Prêmio Nobel de Literatura de 1902). O Sentido e o valor da Vida. Rio de Janeiro: Delta, 1962, que na página 142 de sua obra relata: O aperfeiçoamento dum caráter espiritual é a primeira das condições para entreabrir a possibilidade de nos elevarmos acima da confusão da vida civilizada ordinária, de distinguirmos a verdadeira cultura da civilização puramente humana e de empreendermos uma luta enérgica contra toda a pseudocivilização.  

[3] ARENDT, Hannah, A Vida do Espírito. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2009. p. 40.

[4] Op. cit. p. 271.

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