Jornal Mundo Espírita

Dezembro de 2018 Número 1613 Ano 86
Trabalhadores do Bem Envie para um amigo Imprimir

A mãe do trabalho social

maio/2018 - Por Mary Ishiyama

Jane Addams foi uma mulher à frente de seu tempo. Foi pioneira ativista, assistente social, socióloga, filósofa, sufragista, pacifista, reformadora social e a segunda mulher a ganhar o Prêmio Nobel da Paz.

Nasceu em Cedarville, Illinois, em 1860. Era a mais nova de oito filhos, quatro deles mortos muito novos. Sua mãe, Sarah Adams, morreu quando Jane contava apenas dois anos de idade. Aos quatro anos, contraiu o chamado Mal de Pott que lhe rendeu uma séria curvatura na coluna e uma vida inteira de problemas de saúde.

Aos dez anos, Jane sabia que queria fazer algo pelos menos favorecidos. Estudou medicina mas não se formou devido às cirurgias a que teve que se submeter. Em 1883, após nova tentativa cirúrgica, ela foi para a Europa, onde permaneceu por dois anos se restabelecendo. Foi ali que descobriu que não precisava ser médica para ajudar a população carente.

No verão de 1887, em viagem com amigas, entre elas Ellen Gates Starr, Jane conheceu Toynbee Hall, em Londres, uma casa de acolhimento. Com Ellen, resolveu abrir uma semelhante em Chicago, que vivia sérios problemas sociais devido à industrialização e imigração.

No ano de 1889, em um barracão alugado, Jane e Ellen fundaram a Hull House. Jane pagou pelas primeiras despesas. Depois foram auxiliadas com doações de amigos e mulheres de classe alta que se tornaram doadoras, incluindo Helen Culver, proprietária do barracão que, algum tempo depois, parou de cobrar aluguel.

A casa começou com a oferta de serviços assistenciais gratuitos para as camadas pobres como: creches, agência de emprego, galeria de arte, biblioteca, aulas de inglês e cidadania, de teatro, música, e escola noturna para adultos.

Hull House era, também, um espaço de pesquisa, análise empírica, estudo e debate. Assuntos como economia doméstica, cuidados pós-parto, tuberculose, fadiga, febre tifoide e até coleta de lixo eram tratados por políticos, acadêmicos e sociólogos que ali se encontravam, com frequência. Entre esses, estavam William Thomas e Albion Small, que foi chefe, por trinta anos, do departamento de sociologia da Universidade de Chicago.

Jane, por estar tão envolvida, academicamente, com questões sociais, foi considerada a mãe da assistência social mas seu interesse estava voltado muito mais para a reforma social do que para a sociologia científica, tão em voga à época.

A casa estava inserida em uma comunidade de diversos grupos étnicos: gregos, irlandeses, italianos, judeus, alemães, canadenses. Diante das dificuldades e necessidades da comunidade, ela foi expandindo, tornando-se um amplo complexo de treze prédios que incluía um playground e um acampamento de verão.

Para Jane, a arte tinha um papel muito importante. Ela queria que as pessoas pudessem pensar livremente, pudessem sonhar. E a arte tem essa função. Com o auxílio de Edward Butler, abriu uma exposição de arte e um estúdio onde a comunidade poderia ter aulas e conhecer artistas famosos.

Com essas inovações, abriu-se espaço para as crianças. Na escola, as crianças eram incentivadas a brincar. Para os jovens havia os grupos de leitura e extensão universitária. Vivia-se um período de intensa industrialização, com forte tendência a destruir sonhos, colocando-os no trabalho muito cedo. Jane considerava que era importante preservar a criança e o jovem.

Ela criou a Associação de Proteção Juvenil, que tinha como função estudar e examinar temas como racismo, exploração de menores, abuso de drogas, prostituição, em Chicago, e seus efeitos sobre o desenvolvimento infantil. Sua missão seria a de melhorar o bem-estar social e mental de crianças em situações de vulnerabilidade, para que pudessem alcançar todo o seu potencial em casa, na escola e na comunidade.

Jane e Ellen desenvolveram três princípios éticos que norteavam suas obras sociais: ensinar pelo exemplo, praticar a cooperação e a democracia social.

Em 1894, Jane foi a primeira mulher indicada como inspetora sanitária de Chicago por sua posição quanto ao descarte inadequado de lixo. Com a coleta feita de maneira correta reduziu tanto as mortes quanto as doenças causadas pela falta de saneamento.

Ela foi extremamente ativa em várias frentes, com sua posição de liderança e trabalho junto às massas imigrantes sofredoras e pobres, atendendo-as como se fossem seus próprios filhos. Foi considerada a mãe da nação, mesmo nunca tendo gerado filhos.

Em 1905, foi eleita porta voz do Woman’s Peace Party. Presidiu o Congresso Internacional das Mulheres em Haia. Como consequência, foi eleita presidente do Comitê Internacional de Mulheres para a Paz Permanente e, em 1919, o comitê evoluiu para a Liga Internacional de Mulheres pela Paz e Liberdade.

Em 1931, foi-lhe conferido o Nobel da Paz.

Após sofrer um infarto em 1926, não se recuperou totalmente. Morreu em 21 de maio de 1935, três dias depois de uma cirurgia revelar um câncer não diagnosticado. Seu funeral foi no jardim da Hull House e seu corpo foi sepultado no Cemitério de Cedarville, em Illinois.

Em 1940, foi homenageada com uma série de selos pelo Serviço Postal dos Estados Unidos.

 

Referências:

MARTINS, Carlos Benedito. Passado e presente da sociologia norte-americana. Revista Brasileira de Ciências Sociais, v. 29, n. 87.

SILVEIRINHA, Maria João. No encalço das mulheres de Chicago: Conexões orgânicas e radicais do pragmatismo clássico americano. Revista Famecos, Porto Alegre, v. 23, n. 3, set./out./nov./dez. 2016.

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