Jornal Mundo Espírita

Fevereiro de 2021 Número 1639 Ano 88

A lei divina e a reencarnação

julho/2017 - Por Marcus De Mario

Ao estudar o Espiritismo, conforme seus princípios codificados por Allan Kardec, passamos a ter uma percepção e uma compreensão mais exata do funcionamento da Lei Divina e de um de seus instrumentos, que é a reencarnação. Durante muito tempo, e isso ainda perdura em muitos segmentos religiosos e culturais, tivemos o entendimento equivocado da punição, do castigo exercidos por Deus contra Seus filhos pecadores, e que somente a dor e o sofrimento poderiam nos regenerar. Mesmo assim, dependendo da infração, do pecado, o castigo divino poderia ser uma pena eterna, sem remissão, ou seja, sem oportunidade de reformulação por parte do condenado. Essa visão distorcida sobre um Ser perfeito, justo, bom e misericordioso, como o Espiritismo no-lO apresenta, fez com que muitos se tornassem ateístas, não conseguindo acreditar na existência de um Ser Supremo, causa de todas as coisas. Isso é compreensível, pois o raciocínio, a lógica e o bom senso rejeitam um Deus guerreiro, parcial e vingativo.

Com o Espiritismo aprendemos que o Ser Supremo deve estar muito acima das imperfeições humanas. Que Ele é o Criador de tudo o que existe no Universo, e reveste-se da configuração de Pai, pois Ele é o amor, e o amor vibra em tudo, sendo que nós, Suas criaturas, somos destinados ao encontro com Ele através da lei de evolução, que nos leva paulatinamente à perfeição e felicidade. Essa lei vai nos impulsionando para o amor ao próximo, para a prática do bem, conforme os preceitos e exemplos trazidos por Jesus Cristo.

Com o Espiritismo passamos a entender quem somos, de onde viemos, porque estamos aqui e para onde vamos, compreendendo que somos Espíritos imortais, que a vida prossegue além do túmulo em outra dimensão existencial, e que a Lei Divina nos propicia sempre um novo recomeço através da reencarnação, quando nascemos de novo, num novo corpo, nova personalidade e novas condições sócioculturais, para empreendermos a continuidade de nosso progresso moral e intelectual, assim como da sociedade humana.

É a reencarnação instrumento divino de nossa reabilitação e reequilíbrio, permitindo recomeçar e refazer. Não nos isenta das expiações e provas ainda necessárias, mas todas elas são justas e de acordo com nossas possibilidades, com nossas forças, pois se a cada um é dado segundo as suas obras, ninguém carrega sobre os ombros um fardo mais pesado do que as suas forças suportam. E por misericórdia de Deus, recebemos o auxílio daqueles que nos amam, que nos querem bem, estejam encarnados ou não. A reencarnação é instrumento pedagógico utilizado por Deus para nos impulsionar, Seus filhos, para a frente e para o Alto.

Assim, quando dificuldades e problemas nos visitarem, nada reclamemos, pois eles têm sua razão justa de ser, o acaso não existe, e os acontecimentos, invariavelmente, estão ligados a causas remotas ou presentes, ou seja, decorrem de atos praticados em existências anteriores ou nesta existência. Não se trata de carma, pois com o Espiritismo compreendemos que não existe o está escrito e nada pode ser feito, pelo contrário, somos incessantemente convidados para mudanças e transformações. Se a dor, muitas vezes, é inevitável, o sofrimento só depende da nossa maior ou menor confiança em Deus.

Façamos da atual existência oportunidade diária e contínua de aprimoramento intelecto-moral, sendo úteis para a sociedade, a partir de nossa convivência familiar, pois não adianta querer consertar o mundo se vivemos num lar em desequilíbrio, e intimamente em desarmonia. Aproveitemos a oportunidade reencarnatória agradecendo a Deus pelo que recebemos, pelo que temos, pelo que podemos fazer, mergulhando no amor, o maior dos sentimentos, única forma de reparar o passado e, no hoje, construir um futuro bem melhor.

Em O Livro dos Espíritos, obra fundamental do Espiritismo, Allan Kardec pergunta qual a finalidade da encarnação (q. 132), recebendo a seguinte elucidação:

Deus lhes impõe a encarnação com o fim de fazê-los chegar à perfeição. Para uns, é expiação; para outros, missão. Mas, para alcançarem essa perfeição,  têm que sofrer todas as vicissitudes da existência corporal: nisso é que está a expiação. Visa ainda outro fim a encarnação: o de pôr o Espírito em condições de suportar a parte que lhe toca na obra da criação. Para executá-la é que, em cada mundo, toma o Espírito um instrumento, de harmonia com a matéria essencial desse mundo, a fim de aí cumprir, daquele ponto de vista, as ordens de Deus. É assim que, concorrendo para a obra geral, ele próprio se adianta.

Em missão ou expiação, não importa, temos que dar o nosso melhor, bem aproveitando a oportunidade existencial que Deus nos proporciona, educando-nos, melhorando-nos, desenvolvendo as virtudes e crescendo em conhecimento, para que possamos retornar ao mundo espiritual com a glória de termos vencido a nós mesmos e o mundo, tornando-nos um homem de bem. Essa é a grandiosa oportunidade que a reencarnação nos oferta, dando-nos diversas experiências com o objetivo de nosso crescimento espiritual. Não sejamos teimosos a ponto de desperdiçar a encarnação, nada acrescentando a nós mesmos e aos outros, nossos irmãos em Humanidade, pois, quando estivermos de volta à dimensão espiritual, não tenhamos que, envergonhados, ter de baixar a cabeça diante da pergunta: O que fizeste da oportunidade existencial que Eu te concedi? É muito melhor dormir e despertar com a consciência tranquila e a paz de espírito.

Assine a versão impressa
Leia também