Jornal Mundo Espírita

Dezembro de 2019 Número 1625 Ano 87

A inclusão – fatores determinantes no início dos grupos de estudo

Coordenadoria de Estudos da Doutrina Espírita

setembro/2010

O presente artigo tem por objetivo desenvolver um pouco os conceitos tratados, em linhas gerais, na edição anterior do Jornal Mundo Espírita, no artigo intitulado “O aprendiz da Doutrina Espírita ao longo do tempo”, apresentando as atitudes que o coordenador pode ter em diferentes momentos na vida do grupo, assim como detalhes da estrutura e funcionamento, que podem influenciar no seu resultado.

Nesta edição, trataremos da primeira fase de desenvolvimento, a inclusão.

Como vimos, fase de inclusão é o nome dado à primeira etapa pela qual um grupo passa, desde o momento de sua formação, ou pela qual uma pessoa passa, no momento em que está entrando em contato com um novo grupo.

Essa fase é marcada pela tentativa de aproximação e identificação entre os membros do grupo. Três são os elementos que determinam o andamento nesta etapa da vida de um grupo: Estrutura, conectividade e princípios.

Estrutura

Questões de estrutura dizem respeito aos limites, organização dos papéis, posições, associação e aliança.

Na prática, para os nossos grupos de estudo, as questões de estrutura dizem respeito a como o poder é distribuído e organizado, como se constitui a hierarquia e quais são as etapas pelas quais o integrante deve passar.

Compreender a estrutura de poder e satisfazer-se com ela são necessidades, portanto, das pessoas e grupos na fase de inclusão.

Por se tratar de um grupo religioso, muitas pessoas vão esperar uma estrutura rígida e hierárquica, com pouca mobilidade e muito autoritarismo, já que este é o modelo tradicional das organizações religiosas.

Não bastasse esta tendência natural, nossos grupos de estudo têm adotado um modelo tradicional escolar, no qual as pessoas são divididas de acordo com a quantidade de conhecimento ou vivência que têm, assim como por idade.

Assim sendo, atendendo um fluxo natural, ainda que não se faça uma reflexão maior neste sentido, o mais comum é a concentração do poder nas mãos de um indivíduo, que assume o papel de guia e orientador, geralmente o coordenador ou monitor.

Entretanto, esta estrutura de poder, embora esperada, entra em conflito com os princípios que esposamos e as necessidades psicológicas do adulto aprendiz.

Faz conflito com os nossos princípios, à medida que constatamos, na Doutrina Espírita, uma tendência humanística que valoriza o ser humano e seu potencial, que incentiva o indivíduo a encontrar na sua própria consciência o caminho para a verdade (O Livro dos Espíritos, item 621).

Também diverge das necessidades psicológicas do adulto aprendiz, já que este está em um processo de desenvolvimento do senso de autonomia; tem interesse em ser reconhecido como capaz de tomar suas próprias decisões e autodirigir-se ao longo da vida. Neste sentido, apontam especialistas da área de educação de adultos, um adulto pode até ficar ofendido ou ressentido de não ter o seu potencial reconhecido no trabalho com um grupo.

Deste modo, consideramos que, apesar da tendência natural, o coordenador deve se esforçar por vencer o impulso totalitário e estabelecer uma relação mais colaborativa, construindo uma estrutura em que o poder seja compartilhado entre ele e os participantes.

Uma estrutura saudável, portanto, permitirá a todos exercerem algum tipo de influência e usarem a autonomia, ao mesmo tempo que deixa claro quais são os limites e como fazer este exercício do poder.

Na prática, as questões que devem ser pensadas sobre o coordenador, a respeito da estrutura, são: requisitos para entrar no grupo, requisitos para permanecer no grupo, avaliação dos resultados, escolha do tema, encadeamento dos assuntos, apresentação dos temas, duração da reunião e do grupo, espaço para participação nas discussões, estrutura de atividades fora do horário de estudo, gerenciamento da informação e das interações, entre outras.

Conectividade

A conectividade traz questões a respeito da afiliação, do sentimento de pertencimento e envolvimento entre os participantes. Este sentimento é necessário para que o grupo possa continuar se desenvolvendo. Se ele não for estabelecido, o grupo corre dois riscos: se tornar superficial e ineficiente ou se desintegrar.

Para que uma pessoa se sinta parte, afiliada e envolvida, é necessário que ela possa “ver” o grupo e “se mostrar” a ele.

Por isso é que, nesta fase, geralmente as pessoas têm interesse em falar sobre si, em mostrar quem são e como pensam, mas ainda não estão dispostas aos debates, como ocorre tipicamente nos grupos na fase de controle ou influenciação.

Assim sendo, é importante para quem coordena grupos que estejam nesta fase, grupos novos na casa ou que recebem novos participantes com frequência, deixar que as pessoas tenham a oportunidade de falar de si e ouvir a respeito dos outros participantes, facilitando, assim, a criação do sentimento de afiliação.

O coordenador pode mesmo criar oportunidades para que as pessoas compartilhem a respeito de si, através de determinadas técnicas de dinâmica dos grupos (A dinâmica dos grupos é a ciência que estuda o desenvolvimento dos grupos. Nela, são apresentadas técnicas ou exercícios que visam facilitar esse processo).

Pode-se buscar, então, mais do que fazer uma simples apresentação ao grupo, mas de fato facilitar a comunicação e a exposição, sempre respeitando os limites individuais. Nesta fase as pessoas querem se mostrar, mas não correr riscos em apresentar aspectos que consideram sombrios ou de menos valor. Este compartilhamento, embora útil e produtivo, só acontecerá com naturalidade em um estágio posterior no desenvolvimento dos grupos, o de abertura ou intimidade e o coordenador não deve precipitá-lo.

Princípios/visão de mundo

O último aspecto decisivo na fase de inclusão diz respeito aos princípios do grupo.

As pessoas tendem a se fixar em grupos com os quais compartilhem uma visão de mundo e princípios de convivência.

De um modo geral, grupos religiosos compartilham princípios como solidariedade, caridade, gentileza e humildade. Isso já leva a uma seleção das pessoas que participam dos nossos grupos de estudo, de modo que este aspecto não deveria ser uma dificuldade na constituição dos grupos. Ao contrário, uma das grandes virtudes dos grupos é serem espaços onde as pessoas compartilhem um convívio saudável e uma visão de mundo mais espiritualizada.

É claro que os princípios não são somente falados, mas principalmente vivenciados, e por isso devemos tomar especial cuidado para que a nossa vivência não contradiga o nosso discurso, o que, especialmente nesta fase, seria perturbador ao funcionamento do grupo.

Conclusão

Esperamos, com isso, ter demonstrado como questões não diretamente relacionadas aos conteúdos são importantes na fase de inclusão dos grupos e que os coordenadores, conscientes destas características, possam adaptar sua prática para melhor atender às demandas do seu trabalho como coordenador de grupos de estudo da Doutrina Espírita, colaborando de uma maneira mais eficiente para o crescimento dos participantes.

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