Jornal Mundo Espírita

Abril de 2020 Número 1629 Ano 88

A importância das pequenas atitudes

novembro/2015 - Por Antônio Moris Cury

Pode não parecer, mas as atitudes, ainda que pequenas, podem fazer grande diferença em nossa vida.

Um exemplo trivial: ouvir com atenção e interesse o interlocutor que está com medo, aflito ou desorientado, pode resultar em que ele se acalme e consiga raciocinar com maior clareza a respeito do problema que o atinge, obtendo muitas vezes, com o simples gesto e a conversação que do encontro decorre, o encaminhamento para a sua solução. E, deveras importante, este modo de proceder está ao alcance de todos nós.

Há muitos e muitos anos, no interior do Estado de São Paulo, em cidade com elevada temperatura, visitando um de seus parques, avistamos um carrinho que vendia sorvetes, que chamava atenção pela organização e limpeza. A senhora que dele cuidava era simples, trajava alvo avental e se apresentava com bastante asseio. Na parte superior, havia uma tampa de plástico branco, transparente, onde, embaixo, encontrava-se um pequeno papel com curto texto. Comprado o sorvete, aproximamo-nos e começamos a lê-lo. Ao término da leitura, a senhora imediatamente levantou o plástico, retirou o papel e nos entregou como presente. Ficamos constrangidos e não queríamos aceitar a oferta. A senhora insistiu dizendo que tinha vários iguais em sua casa. Diante da informação, acabamos por aceitar e muito a agradecemos pelo gesto, pela atitude.

Naquele pequeno papel, de 7,0cm x 3,5cm, que conservamos até hoje, estava escrito:

Não se irrite. Sorria.

Não critique. Auxilie.

Não grite. Converse.

Não acuse. Ampare.

André Luiz – Psicografia: Francisco Cândido Xavier

 

Uma pequena atitude daquela senhora, que presentou a um estranho sem pestanejar. Para nós, contudo, foi uma atitude magnífica. Como se não bastasse, o conteúdo do pequenino papel era uma verdadeira lição de vida!

Oxalá consigamos, um dia, colocar em prática tudo o que ali está escrito: ao invés de se irritar, sorrir; em vez de criticar, auxiliar; conversar sem gritar e deixar de acusar para amparar.

É simples, mas não é fácil. É factível, porém, e depende de nossa vontade, de determinação, de disciplina, de muita disciplina. E quando o conseguirmos, sem sombra de dúvida, seremos os primeiros beneficiários desse admirável comportamento.

Sobre o conselho Não critique. Auxilie, constante daquele pequenino papel, interessante destacar a orientação de Carlos Torres Pastorino: Não critique! Procure antes colaborar com todos, sem fazer críticas. A crítica fere, e ninguém gosta de ser ferido E a criatura que gosta de criticar, aos poucos, se vê isolada de todos. Se vir alguma coisa errada, fale com amor e carinho, procurando ajudar. Mas, sobretudo, procure corrigir os outros através de seu próprio exemplo. (Minutos de sabedoria, ed. Vozes, cap.1)

A propósito de disciplina, que serve para tudo em nossa existência, vale relembrar que Chico Xavier, quando informado que passaria a psicografar livros, perguntou a Emmanuel [seu Mentor e Guia Espiritual] que requisitos precisaria preencher para a execução da tarefa, e obteve como resposta que necessitaria de apenas três: disciplina, disciplina, disciplina.

E o resultado, extraordinário por todos os títulos, todos conhecemos: Francisco Cândido Xavier, nosso Chico Xavier, psicografou nada menos que quatrocentas e dez obras sobre os mais variados assuntos, que estão à nossa disposição para leitura, consulta, reflexão e aprofundamento de nossos estudos.

Outro exemplo: por força de nossa atividade profissional, a advocacia (da qual nos encontramos aposentado), seguidamente íamos às escrivanias judiciais cíveis, mais conhecidas como cartórios.

Naquela época, muitos anos atrás, os balcões dos cartórios possuíam vidros, onde eram afixados vários avisos de ordem profissional. Em um deles, o da Terceira Vara Cível de Curitiba, além dos avisos de praxe, a escrivã neles afixava também breves mensagens sobre  Espiritismo. Líamos todas. Um dia, depois de perceber o nosso interesse pelos textos ali estampados, a escrivã, Dirce Schultz, já desencarnada, veio do fundo do cartório, onde ficava a sua mesa, em nossa direção e nos entregou, num gesto suave e bondoso, um presente: o livro Paulo e Estêvão.

Foi o nosso primeiro livro espírita. Tempos depois, ficamos sabendo que ela era vinculada ao Centro Espírita Ildefonso Correia, da capital paranaense. À Dirce Schultz nossa gratidão, nosso melhor muito obrigado, e nossos votos de que sua jornada evolutiva prossiga firmemente espalhando as sementes do Bem e do Amor onde quer que se encontre.

Para ela, uma pequena atitude. Para nós, uma atitude inesquecível e de grande importância.

Assim, pois, não é difícil concluir que todos temos condição de realizar pequenos atos, gestos e atitudes em favor de terceiros que, em última análise, são nossos irmãos, uma vez que todos somos filhos do mesmo Pai Celestial, do mesmo Pai Universal.

A importância das pequenas atitudes está em que elas implicam caridade. E caridade, como o apóstolo Paulo de Tarso bem a definiu, é o amor em ação.

Por fim, cumpre relembrar que: A caridade é a virtude fundamental sobre que há de repousar todo o edifício das virtudes terrenas. Sem ela não existem as outras. Sem a caridade não há esperar melhor sorte, não há interesse moral que nos guie; sem a caridade não há fé, pois a fé não é mais do que pura luminosidade que torna brilhante uma alma caridosa. (O Evangelho segundo o Espiritismo, Allan Kardec, ed. FEB, cap. XIII, item 12)

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