Jornal Mundo Espírita

Setembro de 2019 Número 1622 Ano 87
Revivendo Ensino Envie para um amigo Imprimir

A habitabilidade dos mundos

dezembro/2018

A recente [1924] passagem do planeta Marte num ponto da sua órbita mais próximo da nossa Terra (…) deu assunto para os mais curiosos comentários acerca das hipóteses e fantasias sobre a habitabilidade do astro vermelho.

Se for verdade que um mundo de sábias e reputadas cerebrações se empenhou com ardor na observação telescópica do nosso enigmático vizinho, fazendo constatações positivas sobre a existência de água e neve num dos polos do planeta, o que justificaria a existência dos tão falados canais de Schiaparelli, não é menos certo que alguns Espíritos, preconcebidamente avessos às concepções contrárias à rotina, num relance de curta visão telescópica concluíram pela inexistência dos famosos canais, que atribuem à imperfeição (sic) de certas lunetas.

De sorte que o simples e sumário veredito de dois ou três observadores que também estão sujeitos a não ver tudo quanto existe, pretende demolir a obra que astrônomos de responsabilidade edificaram sobre observações rigorosamente exatas! Mas em tudo isso só existe despeito e inveja, os pigmeus da ciência abarrotam o mundo; e de presunção e orgulho está impado [repleto] o academismo em todas as suas múltiplas modalidades.

Pondo à margem essas futilidades que mais preocupam os sábios do que a própria ciência resta-nos a questão filosófica da habitabilidade dos outros mundos. A lógica mais rudimentar força-nos a pensar que o Criador não levaria os Seus caprichos (se capricho se pode admitir na Perfeição Absoluta) ao ponto de escolher o minúsculo e miserando grão de areia que é o nosso planeta para nele fazer aparecer essa obra máxima que é o Espírito humano.

Desprezando essa objeção, que forçaria o pensador a admitir a existência de Deus, ainda assim o panteísta, o materialista e o ateu, poderiam refletir nesse fato, que não repugna em absoluto às suas convicções: a Natureza, criadora de si própria, obedecendo a leis rigorosamente exatas e justas, não iria por certo reservar a este pobre fragmento do sistema solar, que por sua vez nada é comparado com a majestade de outros sistemas, as prerrogativas de possuir o que de mais perfeito e complexo há sido criado (do nosso ponto de vista) e que pelo nosso julgamento deve ser o homem intelectual e moral.

São tão acanhados, tão relativos, os conhecimentos da Humanidade terrena, que seria estulta pretensão da humana mediocridade supor que esse cortejo infinito de esferas que povoam a amplidão dos espaços siderais e diante das quais a nossa pequenina morada desaparece como uma gota d’água no oceano, foram criados para render eterna homenagem aos desgraçados mortais que por aqui arrastam as suas misérias e imperfeições.

Se a lógica mais comezinha não nos forçasse a admitir a pluralidade dos mundos habitados, porque lógico é supor  que outros mundos deverão oferecer à  vida, em todas as suas manifestações, um habitat mais favorável do que a Terra, o sentimento religioso do homem superior, do homem civilizado, que não pode em absoluto caber dentro de concepções estreitas, oriundas da ignorância do passado e sustentadas pelo zelo de instituições retrógradas, bastaria por si só para não fazer ao seu Deus a suprema injustiça de considerá-lO acanhado, pequenino, imprevidente e falho na execução da Sua obra.

Nós que nos esforçamos por admitir um Deus Onisciente, um Deus Previdente, que seja todo Bondade, todo Perfeição, não podemos compreender como no Espírito esclarecido de certos homens possa caber a ideia de que o Criador tivesse escolhido a minúscula Terra para morada daqueles que Ele criou à Sua imagem e semelhança, ou ainda, que se desse ao capricho de criar seres inteligentes para habitarem esse grãozinho de areia, esquecendo os outros mundos que também são Sua obra, obra aliás mais vultosa e quiçá mais perfeita.

Não nos parece, pois, a nós espíritas, uma utopia pensar que mais cedo ou mais tarde conseguiremos comunicar com os nossos irmãos, de outras moradas do céu. Não duvidamos um só instante de que essas esferas solidárias do nosso destino na grande trajetória do sistema a que pertencemos, sejam, como a Terra, outras tantas paradas do Infinito, mundos de evolução, de expiação, de reparação, de aprendizagem, até mesmo de felicidade, onde os Espíritos encarnam segundo a lei de atração (…).

Flávio Luz
Revista de Espiritualismo, setembro de 1924

 

Nota: Em 31 de julho de 2018, Marte atingiu o ponto mais próximo da Terra em quinze anos. Desde 2003, explicam astrônomos e entidades, Marte não chegava tão próximo aos terráqueos.

A NASA, Agência Espacial Americana, informou que Marte estava a 57,6 milhões de quilômetros da Terra. Em 2003, a distância foi ainda menor, com os dois planetas contabilizando cinquenta e seis milhões de quilômetros de distância entre eles.

Ainda no mês de julho (2018), dia 25, a Agência Espacial Italiana anunciou existir água líquida em Marte, que foi encontrada um quilômetro e meio abaixo de uma camada de gelo, próxima ao polo sul.

Trata-se de um lago com vinte quilômetros de diâmetro, contou o astrônomo Roberto Orosei, pesquisador da Universidade de Bolonha e principal autor da descoberta.

Para especialistas, a descoberta de um reservatório subterrâneo permanente de água líquida, aumenta consideravelmente as chances de haver vida no planeta.

Assine a versão impressa
Leia também