Jornal Mundo Espírita

Fevereiro de 2021 Número 1639 Ano 88
Trabalhadores do Bem Envie para um amigo Imprimir

A grande mestra paranaense

dezembro/2020 - Por Mary Ishiyama

Na Praça 19 de Dezembro, fazendo fundos para a antiga Rua do Serrito, atual Rua Presidente Carlos Cavalcanti, no centro de Curitiba, está a Escola Tiradentes (atual Colégio Estadual Tiradentes), primeiro estabelecimento de ensino complementar de segundo grau de nosso Estado. Foi construída e doada pelo Barão do Serro Azul, Ildefonso Pereira Correia.

Era o ano de 1892 e dona Júlia foi convidada para ser professora e sua diretora.

Dona Júlia, Júlia Augusta de Souza Wanderley, nasceu em Ponta Grossa, em 26 de agosto de 1874, filha de Afonso Guilhermino Wanderley e Laurinda de Souza Wanderley.

Ainda na infância, com sua família, mudou residência para Curitiba.

Casou-se com Frederico Petrich. Não tiveram filhos mas adotaram o terceiro filho da irmã de Júlia, Minervina Wanderley da Costa, registrado com o nome de Júlio Wanderley Petrich.

Júlia Wanderley viveu em um período de muitos preconceitos sociais, tempo em que as mulheres não tinham voz, nem vez. Cabia-lhes somente a reclusão doméstica. As ações de Júlia alterariam esse panorama.

À frente de seu tempo, assim que questões políticas e administrativas sobre a regulamentação do curso da Escola Normal, anexa ao Ginásio Paranaense, ficou definida, ela foi falar com o Governador. Era 28 de fevereiro de 1891 e Júlia requereu que as mulheres tivessem os mesmos direitos dos homens quanto às vagas de ensino. Para atender seu requerimento, o Governador exigiu que ela encontrasse outras mulheres interessadas porque ela não poderia ser a única mulher no curso. Ela foi à luta.

Foi o amor à ciência, a erudição, que levou a sonhadora menina a, desassombradamente, afrontar as barbas veneráveis, os carregados sobrolhos de sisudos políticos e pedagogos, conseguindo abrir portas do Curso Normal às moças.1

Em novembro de 1892 foi formada a primeira turma de normalistas com Júlia Wanderley,  Maria Rosa Gomes, Isabel Guimarães e Cândida Nascimento. Júlia se formou com notas iguais ao melhor aluno da turma, mostrando, então, que as mulheres podiam ser tão competentes quanto os homens.

Assumiu a 9ª Cadeira de Instrução Primária de Curitiba. Foi a primeira mulher nomeada pelo Poder Executivo do Paraná para exercer o magistério. O Paraná tem assim sua primeira liderança feminina e figura de destaque na Área da Educação.

Estava em voga a metodologia educacional de Michel Charbonneau, à qual a nova mestra acrescentou a do suíço Johann Heinrich Pestalozzi. Trabalhou com afinco essa metodologia de ensino na escola, que foi a menina de seus olhos, a Escola Tiradentes.

Dinâmica, escreveu artigos sobre questões sociais para jornais de Curitiba como Operário Livre e O artista. Usava o pseudônimo Augusta de Souza, não se sabe se por modéstia ou devido aos constrangimentos impostos às mulheres que ousavam se envolver em questões políticas e sociais. Na Revista Escola de 1906, teve publicado seu relatório sobre os métodos de ensino e educação aplicados e as dificuldades existentes.

Era entusiasta de Darwin, escrevendo artigos, aos 18 anos, sobre a evolução das espécies, avançados cientificamente para a época.

Em 1915, foi designada Membro do Conselho Superior do Ensino Primário, professora e diretora da Escola Intermediária, curso de extensão para quem já tinha a formação da Escola Normal.

Dr. Vitor Ferreira do Amaral traçou-lhe o caráter, afirmando: Era o tipo mais completo de professora que conheci, durante os anos em que fui diretor da Instituição. Inteligência lúcida, de uma intuição que quase atingia as raias da adivinhação, com uma cultura não vulgar e uma decidida vocação pedagógica que a tornava querida e admirada de seus discípulos e a colocava em destaque entre as suas colegas como primus inter pares (primeiro entre iguais).

Júlia Wanderley desencarnou em Curitiba, no dia 5 de abril de 1918. O busto da educadora, talhado em bronze, por João Turin, encontra-se na Praça Santos Andrade. Ela dá nome a ruas e Escolas, no Paraná, dentre as inúmeras homenagens que lhe são tributadas.

Júlia não é só pioneira ao ingressar na Escola Normal, ela acabou sendo eleita como um divisor de águas para a história da Educação Paranaense, não apenas por ter sido a primeira mulher a ingressar na Escola Normal, mas pela honrosa contribuição que deu ao magistério, através de toda uma vida de dedicação a serviço da educação. (…) Falar da Instrução no Paraná é inevitavelmente um convite à abordagem da contribuição intelectual desta professora que contribuiu e influenciou uma geração através de sua prática, escritos e com exemplo de trabalho. 2

Foi, também, grande colecionadora de fotografias, postais e recortes de jornais. Com mais de quatro mil imagens, muitas da Curitiba antiga deve-se à sua coleção.

Com certeza, uma trabalhadora do bem a ser reverenciada.

 

Referências:

  1. http://www.museuparanaense.pr.gov.br/arquivos/File/Livros/juliawanderley.pdf
  2. NASCIMENTO, Maria Isabel Moura; SOUSA, Nilvan Laurindo. A escola normal de Curitiba e o pioneirismo de Julia Wanderley. Revista HISTEDBR On-Line, Ponta Grossa, UEPG.

3.http://www.ctajuliawanderley.seed.pr.gov.br/modules/conteudo/conteudo.php?conteudo=11

4.https://www.gazetadopovo.com.br/vida-e-cidadania/colunistas/nostalgia/dona-julia-wanderley-bqwm5pefek1402pdw6r5n8k7i/

 

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