Jornal Mundo Espírita

Agosto de 2019 Número 1621 Ano 87

A fé espírita e o testemunho pessoal

agosto/2018 - Por Alessandro Viana Vieira de Paula

A nobre benfeitora espiritual Joanna de Ângelis1 nos propõe uma notável e desafiadora reflexão ao afirmar que Mede-se, portanto, a capacidade da fé religiosa pela maneira como são enfrentadas as vicissitudes e recebidas as provações por aquele que a possui.

De fato, a fé religiosa é colocada à prova todas as vezes que enfrentamos as expiações, as provas ou as contingências da vida física, com a finalidade de promover o nosso progresso espiritual e o fortalecimento moral.

Todavia, a fé religiosa, cuja base se constitui daquilo que acreditamos dentro das nossas concepções religiosas, é algo que vai sendo construído dentro de nós e vai se fortalecendo paulatinamente, a gerar uma força íntima que nos permite vivenciar com equilíbrio os desafios existenciais.

Mas, não se pode improvisar uma fé religiosa com esses resultados íntimos, morais, de forma que o fortalecimento dessa fé exige estudo, reflexão profunda e vivência autêntica de seus postulados.

Dessa forma, a fé religiosa também tem conotação preventiva à medida que vai nos equipando de valores e fibras morais para os desafios naturais de um mundo de prova e expiações.

Não é uma postura masoquista de ficar diariamente esperando as lutas morais ou o sofrimento, mas de saber que, cedo ou tarde, haveremos de enfrentar desafios maiores ou menores que fazem parte da pauta dos nossos aprendizados, enquanto Espíritos imortais que somos a caminho da plenitude.

Nos atendimentos fraternos das Casas Espíritas é comum acolhermos pessoas que estão desequilibradas diante de algum problema vivenciado, mormente porque não tinham uma vivência religiosa habitual e de comprometimento moral, ou seja, a fé estava enfraquecida, fragilizada.

Será muito mais desafiador, mas não impossível, começar a construir uma fé religiosa sólida diante dos desafios já instalados e perturbando-nos as emoções.

Abordando mais especificamente a fé espírita, que nos propicia as reflexões saudáveis em torno da reencarnação, da lei de causa e efeito, da imortalidade da alma, da crença em Deus e da permanente assistência espiritual que recebemos, consideramos que a fé espírita deve nos trazer um fortalecimento moral capaz de evitar os desequilíbrios, as revoltas, as depressões, as quedas, as lamúrias, as fugas etc.

Tanto que a benfeitora Joanna de Ângelis1 ainda nos propõe que Acreditar em Deus, na imortalidade do Espírito, na excelência dos postulados da reencarnação e permitir-se abater quando convidado à demonstração da capacidade de resistência, é lamentável queda na leviandade ou clara demonstração de que a fé não é real…

Permitir-se depressão porque aconteceram fenômenos desagradáveis e até mesmo desestruturadores do comportamento, significa não somente debilidade emocional que apenas tem fortaleza quando não há luta, mas também total falta de confiança em Deus.

Parece enérgica a fala da benfeitora espiritual, mas é a lição de amorosidade e de advertência que precisamos ouvir e refletir, a fim de que possamos enfrentar as lides evolutivas sem amargura e sem conflito, nos fortalecendo cada vez mais nas lições do Consolador Prometido, que é um refrigério para as nossas almas.

Infelizmente, temos visto alguns confrades espíritas que diante das provações da vida elegem o desânimo, o abandono das tarefas nas Casas Espíritas, a revolta contra Deus, como se estivessem aguardando algum privilégio ou alguma solução mágica para os seus problemas.

Não devemos crucificá-los, mas exercitar a compaixão porque a mensuração da dor e o nível de fé é algo muito pessoal, de tal sorte que devemos orar para que esses companheiros das fileiras espíritas possam se reabilitar, se possível ainda na atual reencarnação, reencontrando a alegria de viver e de servir e a confiança irrestrita em Deus.

Convém registar que também temos tido contato com histórias exuberantes de espíritas que transformaram a dor em oportunidade de iluminação espiritual.

São espíritas que enfrentaram doenças graves, separações conjugais dolorosas, lutos, ingratidões severas, suicídios na família, reveses econômicos, e mantiveram-se fiéis aos postulados espíritas, prosseguindo nos passos da vida e nos labores religiosos com profunda serenidade e fidelidade.

É claro que diante dessas e de outras situações penosas, talvez o espírita necessite de um tempo para administrar a própria vida, ou para resolver o problema, mas nunca com revolta e abandonando o grupo de estudo, o labor mediúnico, as tarefas religiosas, o serviço assistencial, necessitando, quem sabe, reduzir momentaneamente os compromissos para uma melhor gestão da sua existência.

Aliás, propõe Joanna de Ângelis1 que É compreensível que diante das preocupações que assaltam a existência humana, coloque-se o indivíduo em uma atitude de reserva, mesmo de tristeza passageira, enquanto resolve o impasse, recuperando logo que se lhe faça possível a alegria de viver e de liberar-se na contabilidade espiritual.

Assim sendo, devemos respeitar as lutas e as dores dos confrades espíritas, porque cada um tem o seu tempo de recuperação emocional e moral, de maneira que não podemos estabelecer um padrão para esses tipos de ocorrências, e, ademais, é sabido que cada indivíduo tem o seu grau de resistência moral, fruto de conquistas transatas, de outras reencarnações.

Se um espírita, por exemplo, enfrenta um luto na família e está escalado naquela semana para fazer uma palestra, é perfeitamente compreensível que possa se ausentar, justificando-se previamente, até porque, talvez ele seja a pessoa equilibrada a sustentar a família nessas horas difíceis e deve se fazer presente.

Reflitamos! E que possamos reconhecer que1 a fé espírita, desse modo, fortalece-se quando posta à prova, ensejando àquele que a possui satisfações inigualáveis, porque centrada na coragem e no bem fazer, de modo que deveremos viver o Evangelho do Cristo em toda a sua magnitude, nas horas mais favoráveis como nos tempos mais amargos, até para que o nosso modesto exemplo possa servir de luz para outros que transitam pelo sofrimento com a fé debilitada.

E jamais esqueçamos a fala de Jesus2: Vinde a mim vós que estais aflitos e sobrecarregados que eu vos aliviarei.

 

Referências:

  1. FRANCO, Divaldo Pereira. Atitudes Renovadas. Pelo Espírito Joanna de Ângelis. Salvador: LEAL, 2009. cap. 13.
  2. BÍBLIA, N. T. Mateus. Português. O novo testamento. Tradução de João Ferreira de Almeida. Campinas: Os Gideões Internacionais no Brasil, 1988. cap. 11, vers. 28.
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