Jornal Mundo Espírita

Novembro de 2017 Número 1600 Ano 85

A família e a construção do protagonismo juvenil

outubro/2017

O período da adolescência e juventude é dos mais desafiadores para o ser humano reencarnado. É, como afirma o Espírito Joanna de Ângelis, um período turbilhonado que leva o jovem a verdadeiras crises existenciais de identidade, de contestação de valores, decorrentes das mudanças físicas, sexuais, psicológicas e cognitivas ao mesmo tempo.1  É fase em que todos os conteúdos arquivados no inconsciente do ser passam a revelar-se, em forma de tendências, aptidões, anseios e tentativas de realização.2  Caracteriza o momento em que o ser passa a descobrir-se como é, tendo em vista seu passado reencarnatório, inicia o processo de entendimento do mundo que o recebe, assim como a busca do seu lugar e do seu papel neste mundo. Realmente, é um turbilhão de sentimentos, de sensações, de descobertas e de dúvidas que assolam o mundo íntimo do jovem nesse momento.

Considerando a família como base estrutural sobre a qual se desenvolve o ser humano reencarnado, deve ela redobrar a atenção para seu fundamental papel no apoio de que os jovens necessitam nesse período tão conturbado por que passam, visando especialmente permitir que se sintam ativos e integrados nos diferentes contextos de sua vida.

Enquanto pais, tios, avós, ou seja, enquanto membros adultos que somos referência para os jovens, no contexto familiar, temos de refletir sobre o ambiente que estamos proporcionando em nossos lares, o qual, certamente, exercerá influência importantíssima no desenvolvimento de sua personalidade, sua identidade e seus ideais.

Em um momento delicado da sociedade em que o uso de drogas lícitas e ilícitas é lugar comum entre jovens e amplamente divulgado pela mídia em geral; onde o sexo é banalizado, atendendo aos apelos da sensualidade descontrolada; onde se criam jogos virtuais incentivando automutilação e até mesmo o extermínio da própria vida como desafios a serem vencidos, precisamos nos questionar se estamos criando ambiente propício para que o jovem tenha a necessária liberdade de se expressar tal qual ele é, respeitando suas opiniões, seu modo de ser, seus desejos, acolhendo suas dúvidas de modo imparcial e não preconceituoso, respeitando suas escolhas e dando-lhe o devido espaço para que compartilhe suas experiências, mesmo que não sejam as mais adequadas ou aquelas que desejaríamos que vivenciasse. Ou seja, estamos permitindo que o lar seja o porto seguro onde o jovem pode atracar o barco de suas experiências, emoções, dúvidas e desilusões, sem necessitar correr o risco de buscar apoio em outras paragens, por nós desconhecidas?

Alerta Joanna de Ângelis  que a influência dos pais é decisiva na elaboração e desenvolvimento do idealismo, na afirmação da própria identidade, sem que haja pressão ou autoritarismo dos genitores, antes oferecimento de meios para o diálogo esclarecedor, sem a sujeição aos conselhos castradores e impositivos, sempre de maus resultados.3 (grifos nossos). Ante esta afirmativa devemos nos perguntar: Nossos jovens se sentem realmente à vontade para falar sobre sexo, sexualidade ou drogas conosco? Não temos sido castradores até mesmo do diálogo, com nossos discursos prontos e nossas certezas absolutas sobre alguns assuntos?

É da natureza do jovem questionar, duvidar, buscar experiências para que tire suas próprias conclusões e, estando isso fora de nosso controle, pois ele terá de viver a sua própria vida, precisamos, ao menos, criar mecanismos para nos assegurar de que, em acertos ou equívocos, ele terá a certeza de poder contar conosco para ouvi-lo e auxiliá-lo sempre que preciso.

Em outro aspecto, levando em consideração o aumento dos casos de depressão infantil e juvenil, é válido nos questionarmos se nossas crianças e jovens terão a confiança necessária para nos relatar que não estão sentindo prazer em viver suas vidas, que não têm vontade de levantar da cama, que pensam mesmo em exterminar a própria existência, certos de que não revidaremos com frases feitas dizendo que eles têm tudo na vida, que não têm motivos para não querer viver, que tanta  gente tem muito mais dificuldades do que eles.

Muito bom se eles puderem ter a segurança de nos contar seus sentimentos sem receios, principalmente nesses casos que demonstram sintomas de uma doença, que precisa ser diagnosticada e tratada por profissionais especializados, evitando consequências mais danosas à sua saúde e à sua vida.

Para que nosso jovem tenha autonomia e protagonismo sobre a própria vida, não podemos esperar que ele viva de acordo com as nossas crenças, nossos sonhos, nossa vontade. Precisamos estimulá-lo nas suas tendências positivas e auxiliá-lo a rever sua postura quando se apresentarem as tendências negativas, características do Espírito em processo evolutivo que somos todos nós.

O jovem protagonista precisa ter a sua opinião valorizada, participando das decisões do lar, sentindo-se pertencente e responsável pela manutenção da harmonia e da organização da casa onde habita, com direitos e também com os deveres bem definidos.

A partir da adolescência, o jovem começa a descobrir seu mundo interior e a desbravar também o mundo exterior. A família deve ser o esteio para que se torne o protagonista de sua própria vida e trilhe com segurança o seu próprio caminho.

 

Bibliografia:

1 FRANCO, Divaldo Pereira. Adolescência e vida.  Pelo Espírito Joanna de Ângelis. 10. ed. Salvador: LEAL, 1997. cap. 9.  p. 54.

2 ____. Op. cit. cap. 5. p. 33.

3 ____. Op. cit. cap. 5. p. 34.

Assine a versão impressa
Leia também