Jornal Mundo Espírita

Setembro de 2020 Número 1634 Ano 88

A Espiritualidade faz bem ao coração

dezembro/2019 - Por Edson Gomes Tristão

Em diretriz do mês de setembro de 2019, a Sociedade Brasileira de Cardiologia passou a recomendar, aos profissionais dessa especialidade, a inclusão da Espiritualidade na anamnese dos pacientes portadores de distúrbios cardiovasculares, que é a maior causa de morte em todo o mundo, segundo a Organização Mundial da Saúde – OMS1.

Para avaliar esse tema, reuniram-se mais de quinhentos cardiologistas, desde 2012, quando criaram o Grupo de Estudos – GEMCA, com a missão de verificar cientificamente as inter-relações dos pacientes dotados de Espiritualidade e a sua evolução frente às doenças cardiovasculares. Um de seus coordenadores é o Dr. Álvaro Avezum, que dirige um grupo semelhante no Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia, em São Paulo. Essa decisão, portanto, não é aleatória, foi respaldada pelos resultados em mais de cem trabalhos científicos que comprovaram os benefícios para a saúde do coração, nas pessoas com desenvolvimento de valores espirituais. Elas foram avaliadas através de questionários validados com parâmetros científicos, comprovando-se que tiveram comportamento mais saudável frente a fatores básicos das doenças cardíacas, como melhor controle da pressão arterial, desenvolveram menores riscos cardíacos prevenindo enfartes e Acidente Vascular Cerebral – AVC, além de ter melhor qualidade de vida.

O grupo lembra, porém, que o termo Espiritualidade não é o mesmo que religiosidade. A Espiritualidade envolve postura perante a vida e não é específica de uma religião, tanto que o grupo que estuda o tema, em São Paulo, é integrado por agnósticos, judeus, católicos, protestantes, muçulmanos, hindus, espíritas e até mesmo ateus. Ela representa a relação com o sagrado ou o transcendente, levando o indivíduo a compreender e encontrar significados para a sua vida e um sentido de conexão com algo maior do que ele próprio, como relata Saad e colaboradores2.

É também uma conquista subjetiva que pode estar ligada ou não à religião. A busca de sentido para a vida, manifestada por meio de emoções, como resiliência, gratidão e amor é um dos caminhos para se chegar a ela. Já a religiosidade, na interpretação de Hufford3, é um sistema organizado de crenças, práticas e símbolos, desenvolvidas para facilitar a proximidade com o sagrado ou transcendente. Para Vallant4, a principal característica é que na religiosidade associam-se os aspectos interpessoais e institucionais de uma religião, ocupando-se das doutrinas, valores e tradições de um grupo formal.

Esse estudo, novo no Brasil, é antigo em outros países como Estados Unidos, onde, desde 1994, algumas faculdades começaram a incluir o componente Espiritualidade no seu ensino médico. Hoje, 90% das 126 escolas médicas daquele país oferecem cursos sobre esse tema aos seus alunos, enquanto no Reino Unido, são 59%, o que demonstra a relevância do tema5.

É possível que, em breve, os médicos poderão recomendar aos seus pacientes que, além das dietas saudáveis como: diminuição do açúcar, sal e gordura, realização de atividade física, eliminação de vícios como tabagismo e etilismo, deverão ainda direcionar esforços para desenvolver sua Espiritualidade, favorecendo o controle de suas emoções como forma de prevenção e tratamento das doenças cardiovasculares.

Um dos principais vilões da saúde cardíaca é o estresse, que aumenta o cortisol sanguíneo, que por sua vez eleva a pressão arterial, provocando taquicardia, arritmias, favorecendo o enfarte do miocárdio. As pessoas espiritualizadas têm maior convivência social e enfrentam os problemas da vida de maneira mais fácil, desenvolvendo a resiliência. Elas costumam alimentar expectativas positivas em relação ao futuro, gerenciam melhor seu estresse, ficando menos expostas às emoções desagradáveis que levam aos riscos cardíacos.

A Espiritualidade, porém, não deve ser reduzida a mais uma terapia que o médico possa prescrever, como se estivesse receitando antibiótico para um processo infeccioso. Ela deve funcionar como um complemento nas ações que visam investigar a causa e o tratamento das doenças. Os pesquisadores alertam que, muitas vezes, a busca da Espiritualidade está associada à religiosidade, tendo-se que ter cautela no trato com o doente. As diretrizes de algumas religiões e a forma como são exercidas pelos seus seguidores podem interferir negativamente no tratamento médico, levando a problemas de saúde ou piorando o estado do paciente.

Pela sua rigidez e inflexibilidade acabam sendo excessivamente restritas e limitadoras. Podem também levar o doente a achar-se esquecido ou castigado por Deus, por estar sofrendo. A religiosidade, sozinha, não faz milagre, como lembra o cardiologista Marcos Knobel, do Hospital Albert Einstein: Quem só se dedica à religião e esquece de outros fatores não estará mais protegido do que alguém que cuida da saúde, mas não é tão religioso.

O Espiritismo, através de sua vasta literatura, demonstrando a imortalidade da alma e a continuidade da vida em outra dimensão onde o ser continua estudando, trabalhando e aprendendo, ajuda no desenvolvimento da Espiritualidade, conforme registra Allan Kardec nas páginas de O Livro dos Espíritos6. A pessoa passa a perceber que a doença não é um castigo Divino.

A Doutrina Espírita responde também questões primordiais da nossa vida como: quem somos, de onde viemos, nossa missão aqui na Terra e para onde vamos, após a morte. Elucidações que ajudam o doente a incorporar valores espirituais importantíssimos como Espírito imortal. Esse cabedal de conhecimentos ajuda a maturidade espiritual de cada um, favorecendo a luta para o equilíbrio físico e mental, tão importante na prevenção e cura de todas as doenças e não só as cardiovasculares.

Que a Espiritualidade seja bem-vinda à Medicina. O paciente agradece.

 

Referências:

1.Relatório da Organização Mundial da Saúde (OMS) e Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) em 3.9.2019 (https://pemed.com.br) Saúde Pública.

2.SAAD, M.; MASIERO, D.; BATISTELLA, L. Espiritualidade baseada em evidências. Acta Fisiatr. 2001;8(3):107-12.

3.HUFFORD, D. J. Visionary spiritual experiences and cognitive aspects of spiritual transformation. New York: Metanexus Institute, 2011.

4.VALLANT, G. E. : evidências científicas. São Paulo: Manole, 2010.

5.LUCHETTI, G. et al. Spirituality and health in the curricula of medical schools in Brazil. BMC Med Esduc J. 2012, Aug; 12:78.

6.KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Rio de Janeiro: FEB, 1974.

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