Jornal Mundo Espírita

Agosto de 2019 Número 1621 Ano 87
Revivendo Ensino Envie para um amigo Imprimir

A Doutrina da Imortalidade

julho/2018 - Por Lins de Vasconcellos

Quando nos afastamos momentaneamente do burburinho das paixões estonteantes que geram um propício ambiente para a expansão da animalidade, de que os homens fazem constituir as suas alegrias, sentimos como que um desejo ardente de procurar nos arcanos do passado essas profundas verdades que apaziguaram dores, arrancando almas do lodo deste mundo para elevá-las ao cimo da espiritualidade.

Transportamo-nos, então, nas asas dos fragmentos dessas civilizações veneráveis cujo esplendor por um fio luminoso chegou aos nossos dias, a essa época que já vai longe, e lá encontramos os princípios da mais encantadora filosofia a guiarem o homem para as lucubrações da vida espiritual, da vida infinita que palpita grandiosamente na amplidão do Universo.

Um ligeiro golpe de vista sobre as crenças, que animaram os homens dessa era remotíssima, patenteia flagrantemente que a Doutrina da Imortalidade exerceu um papel preponderante, concorrendo para a purificação de muitos dos que se preocuparam com esse assunto de incomensurável valor.

Na Índia, no Egito, na Grécia e outros pontos do planeta, até onde chegou a luz fulgurante desses ensinos puros, surgiram luminares de progresso, paladinos do aperfeiçoamento do Espírito pela prática das boas ações. O trabalho potente que empreenderam atravessou gerações e os séculos, as virtudes e os vícios, os gozos e as paixões de todos os matizes, para se apresentar atualmente na excelsitude da sua grandeza de sempre.

Os Vedas, cuja idade remonta a um período longínquo, calcaram a sua evolução na Doutrina da Imortalidade do ser humano. Diziam eles:  Há uma parte imortal no homem que é aquela, oh! Agni, que cumpre aquecer com os teus raios, inflamar com os teus fogos,  -De onde vem a alma? Umas vêm para nós e daqui partem, outras partem e tornam a voltar.

Krishna, que foi, incontestavelmente, um dos maiores vultos dessa Antiguidade respeitável, dizia: O destino da alma depois da morte constitui o mistério dos renascimentos. Se a pureza é que  domina, a alma voa para as regiões dos seres puros que têm o conhecimento do Altíssimo. Mas, se é dominada pela paixão, a alma vem de novo habitar entre aqueles que estão presos às coisas da Terra. Todo o renascimento, feliz ou desgraçado, é uma consequência das obras praticadas nas vidas anteriores.

Buda segue a mesma norma de Krishna: é amante e propagador de todas as virtudes dignificantes e purificadoras.

Hermes, profundo conhecedor dos segredos da Natureza, como iniciado de alto valor, presenciou um dia coisas maravilhosas na imensidade do espaço sideral:  a trajetória dos  astros, a harmonia das esferas, a música celeste e a luz indescritível que ilumina os céus. Ao mesmo tempo uma voz invisível lhe disse: O destino do Espírito humano tem duas fases: cativeiro na matéria, ascensão na luz. As almas são filhas do céu e a viagem que fazem é uma prova. Na encarnação perdem a reminiscência de sua origem celeste… As almas inferiores e más ficam presas à Terra por múltiplos renascimentos, porém, as almas virtuosas sobrevoam para as esferas superiores onde recobram a vista das coisas divinas.

Pitágoras, com a sua genialidade potente, não foi menos feliz.

Platão, outro gênio admirável, discípulo de Sócrates, o lúcido filósofo precursor do Cristianismo, após a desencarnação deste, foi para o Egito, de onde regressou possuidor de vários conhecimentos iniciáticos. A alegoria que ele pôs no final da sua Republique deixa ver de modo frisante o que pensava a respeito das desigualdades humanas: Almas divinas! Entrai em corpos mortais; ide começar uma nova carreira. Eis aqui todos os destinos da vida. Escolhei livremente; a escolha é irrevogável. Se for má, não acuseis, por isso a Deus.

Nos estreitos limites de um artigo, não é possível dar uma ideia completa das transcendentais doutrinas professadas com pujante galhardia e com invejável lucidez pela grande falange dos pensadores antigos.

Com o advento do Cristianismo ressurgiu a Doutrina da Imortalidade, da pluralidade das existências e da multiplicidade dos mundos habitados.

Infelizmente, os interesses terrenos sobrepujaram os surtos de engrandecimento dos Espíritos e, à sombra dos princípios morais mais puros, estabeleceram o comércio mais vil que é possível imaginar.

Mas, como em todos tempos, o Deus dos mundos, o Pai bondoso, não abandona  os Seus filhos. É principalmente por isso que vemos reaparecerem hoje as mesmas doutrinas dos luminares do passado, mais possantes, mais grandiosamente fortes, no Espiritismo, manancial sublime de concepções excelsas, sol divino a iluminar os homens nas trevas deste mundo, desvendando-lhes horizontes novos para que compreendam e acatem os cabedais de outros tempos e marchem para esse gigantesco destino que a todos aguarda nos confins da perfectibilidade.

Lins de Vasconcellos
Revista de Espiritualismo, setembro de 1916.

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