Jornal Mundo Espírita

Agosto de 2019 Número 1621 Ano 87

A desigualdade social e a avareza

novembro/2015 - Por Alessandro Viana Vieira de Paula

Ocorre anualmente o Fórum Econômico Mundial, onde se discutem as questões econômicas com abrangência mundial, e, no ano de 2015, ocorreu em Davos, na Suíça, no período de 21 a 24 de janeiro.

Às vésperas de ocorrer o citado Fórum Econômico, uma notícia ganhou destaque na mídia internacional.

Foi divulgado que 1% das pessoas mais ricas do mundo detém quase que 50% do PIB global e que 80% da população do mundo divide apenas 5,5% da riqueza do planeta.

Esses dados foram fornecidos pela entidade Oxfam, que também esclareceu que, após a crise econômica de 2008, houve um aumento da desigualdade social e que uma a cada nove pessoas ainda passa fome no planeta e mais de um bilhão de pessoas ganha menos de US$ 1,25 por dia.

De fato, são dados alarmantes e a aludida entidade esperava que a desigualdade social pudesse ser objeto de discussão, no Fórum Econômico Mundial, por gerar um risco para a política internacional, de forma que os líderes dos países e do setor privado deveriam enfrentar essa questão crucial para o futuro da Terra.

Quando buscamos entender essa temática à luz da veneranda Doutrina Espírita, encontraremos em O Livro dos Espíritos, na questão nº 806, os benfeitores espirituais afirmando que a desigualdade social é obra do homem e não de Deus.

Allan Kardec também questiona sobre a possibilidade da igualdade absoluta das riquezas e os benfeitores advertem que não é possível, pois a diversidade das faculdades e caracteres opõe-se a isso (questão nº 811 de O Livro dos Espíritos).

Essas orientações da Espiritualidade Superior estão inseridas no capítulo IX, da 3ª parte de O Livro dos Espíritos, quando se aborda a Lei de Igualdade, constando, ainda, que a desigualdade social desaparecerá da Terra junto com a predominância do orgulho e do egoísmo, restando somente a desigualdade do mérito.

Frise-se que o problema mais grave não é propriamente a riqueza estar acumulada nas mãos de poucos indivíduos, mas o uso que estes fazem do dinheiro, tratando-se, pois, de uma questão também de ordem moral.

A grande maioria desses detentores das riquezas materiais deseja sempre aumentar sua fortuna e ter cada vez mais projeção social (questão nº 816 de O Livro dos Espíritos), pouco se importando com aqueles que estão em sofrimento, material ou moral, de forma que vivem aprisionados no egoísmo e no orgulho, e, quando raramente praticam a caridade, é para serem notados e reconhecidos.

Os Espíritos superiores afirmam que, se uma sociedade vivesse de acordo com os parâmetros do Cristo, ninguém morreria de fome, porque o mais forte (moral e/ou materialmente) sempre ampararia o mais fraco, e não o oprimiria ou o negligenciaria.

Essa questão da avareza sempre nos suscita outros enfoques, porque a lei de amor determina que devemos ofertar ao próximo tudo aquilo que temos, visando o amparo da criatura humana e a melhoria da sociedade, pois o legítimo cristão sempre deve ser útil a qualquer pessoa e em qualquer circunstância. Esse é um dos ensinos morais da parábola do bom samaritano.

Muitos de nós já conseguimos superar a avareza material, mas a benfeitora espiritual Amélia Rodrigues, na obra Trigo de Deus, psicografada pelo médium Divaldo Pereira Franco, consegue enriquecer esse assunto, falando-nos de outras formas da avareza que revelam nossa imperfeição moral.

Quantos de nós somos avaros da saúde, porque temos boas condições físicas, mas levamos uma vida ociosa, ou ficamos apenas preocupados com as questões pessoais e familiares, não nos permitindo ser úteis àqueles que estão enfermos do corpo, necessitando de alguém que lhes dê um abraço, uma boa palavra ou um banho.

Outros optam pela avareza do conhecimento, uma vez que gozam de uma lucidez de raciocínio e são portadores de vasto patrimônio intelectual, mas não compartilham com as demais pessoas, sobretudo com aqueles que são carentes nessa área e na material, de tal sorte que poderiam ser voluntários em entidades assistenciais, ofertando, por exemplo, reforço escolar para os mais carentes.

Há também a avareza do amor, havendo indivíduos que têm dentro de si um profundo desejo de ajudar o próximo, mas bloqueiam esse impulso por diversos motivos (falta de tempo e de oportunidade, outras metas existenciais etc.), enclausurando-se na indiferença, que os tornará infelizes.

Nessa relação das avarezas, permito-me incluir a avareza do tempo, pois há muitas pessoas que têm tempo disponível, porque não trabalham, ou conseguem melhor administrar o tempo, ou possuem cargas horárias de trabalho mais flexíveis, mas optam por desperdiçar esse tempo que lhes sobra, com distrações na internet, exageros nos cuidados com o corpo, conversas e leituras vazias etc., esquecendo-se dos cuidados com o Espírito, que envolve a caridade, a presença no templo religioso e outras condutas ricas de espiritualidade.

Dessa forma, os preceitos morais ensinados e vividos por Jesus carecem de maiores reflexões na pauta das nossas vidas, a fim de que possamos nos esforçar por vivenciá-los, ainda que seja à custa de muita disciplina e sacrifício, pois somente o amor nos permitirá superar o câncer da avareza, suavizando a desigualdade social, que deixará de existir na sociedade regenerada do porvir, cujos alicerces estão sendo construídos neste momento e a partir das nossas condutas diárias, simples ou grandiosas, mas que devem refletir o desejo sincero de fazer aos outros tudo que desejamos a nós.

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