Jornal Mundo Espírita

Maio de 2019 Número 1618 Ano 87

A cultura da mentira

abril/2017 - Por Cristiane Maria Lenzi Beira

No clássico literário de Milan Kundera – A insustentável leveza do ser1 – há uma cena que simboliza um dilema muito comum nos relacionamentos sociais: o uso da mentira pode ser, em determinadas situações, a melhor coisa a ser feita?

Na narrativa observamos as posturas em oposição adotadas por dois personagens principais, Franz e Sabina, com relação ao uso da mentira nos relacionamentos. Para Franz, a vida verdadeira é aquela em que a mentira jamais deve ser utilizada. Portanto, em hipótese alguma Franz costumava recorrer a essa fuga, nunca se escondendo da realidade, nem tampouco procurando dissimular qualquer acontecimento indesejado. Sabina, sua amante, em contrapartida, em momento algum havia agasalhado a pretensão de ser sempre verdadeira. Acreditava que não mentir nem para si nem para os outros, só seria possível se vivêssemos sem público. Afirmava, também que havendo uma única testemunha de nossos atos, adaptamo-nos de um jeito ou de outro aos olhos que nos observam, e nada mais do que fazemos é verdadeiro.

O dilema da mentira acompanha a História da Humanidade e aparece, inclusive como enredo principal da narrativa bíblica do pecado original, quando a serpente mente para Eva, de certa forma, ao dizer que ela não teria problema algum em comer do fruto proibido e que não morreria, conforme Deus havia profetizado (sem explicar a que tipo de morte o Criador se referia). Eva, por sua vez, ao convidar Adão para se juntar a ela, também não apresenta a situação da forma mais transparente possível, mas conforme o interesse que tinha em trazer o companheiro para seu lado da história. E Adão, por fim, ao conversar com Deus, procura meios de fugir do enfrentamento da verdade, procurando se esconder atrás dos arbustos do paraíso. Essas são algumas dentre as diversas maneiras que utilizamos para ocultar a verdade.

Talvez não seja arriscado afirmarmos que todas as pessoas, alguma vez na vida, depararam-se com dilemas envolvendo a presença desse par de opostos: verdade – mentira. Costumeiramente parece-nos que melhorar um pouco o acontecimento, pelo uso de mentiras ou distorções é preferível do que apresentar a verdade nua e crua. Por que será que nos sentimos tão frequentemente tentados a mentir, a ponto de, não raras vezes, nem sequer nos darmos conta de que estamos mentindo?! Por que a mentira está tão entranhada nos relacionamentos sociais?!

Uma possível resposta quem nos oferece é a própria Sabina, personagem de Kundera, ao dizer que ajustamos a descrição da realidade de acordo com as testemunhas que nos observam, ou seja, promovemos alterações, as que julgamos convenientes, ao descrever o que supostamente seria a verdade. É uma outra forma de explicar a presença do conceito de persona, da psicologia junguiana, em nossas vidas.

A persona, segundo C. G. Jung, seria uma máscara que adotamos, que aparenta uma individualidade, procurando convencer aos outros e a si mesma que é uma individualidade, quando, na realidade não passa de um papel.2 Esse recurso da psique é destinado, por um lado, a produzir um determinado efeito sobre os outros e por outro lado a ocultar a verdadeira natureza do indivíduo.3

Dessa forma, fica fácil de entendermos um dos motivos que nos levam a dourar a pílula e a promover distorções da realidade: usamos de mentiras para mantermos a persona em funcionamento. Fazemos as alterações necessárias nos acontecimentos e situações, para garantirmos que a forma como as pessoas nos veem continue valendo. O antídoto, para esse modo fantasioso de vivermos, seria o autoconhecimento, possibilitando-nos a integração das funções da psique, livrando-nos das imagens distorcidas de nós mesmos e nos convidando à desconstrução gradual da máscara. No entanto, poucos são corajosos o suficiente para assumirem sua realidade, suas sombras e fragilidades. A maioria prefere viver no sonho de serem (ou parecerem) perfeitos.

Devemos nos lembrar, também, que há outros fatores geradores da mentira, como o medo da punição, por exemplo. A forma como a sociedade enxerga o erro, a começar pelo sistema educacional, não deixa a pessoa à vontade para admitir seus fracassos, promovendo, então, a cultura da fuga do erro, por meio de mentiras. Ao propagarmos a prática de punir os erros oriundos da ignorância, de forma vexativa, automaticamente estimulamos o surgimento de outro costume: o de negar o erro para se evitar o constrangimento.

E, sem a pretensão de esgotar o assunto, podemos lembrar, por fim, das situações nas quais a mentira é utilizada como recurso egoísta de beneficiamento pessoal. Quantas vezes a verdade é enxotada para que uma pessoa ou um grupo de pessoas se favoreça de alguma forma?! O interesse pessoal e egoísta, certamente, é um dos grandes geradores da falsidade nos relacionamentos sociais.

Pelas inúmeras situações criadas nas teias da mentira, parece que temos preferido a falsidade que nos mostra uma fantasia de mundo perfeito do que a verdade que nos apresenta os fatos reais, ainda que não tão bonitos. Fica, então, outro dilema a ser pensado: como modificar uma cultura tão consolidada, ainda que perniciosa, de que mentir faz parte da natureza humana?!

 

1KUNDERA, Milan. A insustentável leveza do ser. Tradução de Tereza B. Carvalho da Fonseca. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985. Terceira parte.

2JUNG, Carl Gustav. O eu e o inconsciente. Tradução de Dora Ferreira da Silva. Petrópolis: Vozes, 2014. parágrafo 245.

3Op. cit. parágrafo 305.

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