Jornal Mundo Espírita

Fevereiro de 2018 Número 1603 Ano 85

A consciência ingênua na evangelização

novembro/2013 - Por Cezar Braga Said

A educação do povo precisa ser totalmente modificada para que todos possam ter a noção dos deveres sociais, o sentimento das responsabilidades individuais e coletivas e, principalmente, o conhecimento do objetivo real da vida, que é o progresso, o aperfeiçoamento da alma, o aumento de suas riquezas íntimas e ocultas.  

Léon Denis (O mundo invisível e a guerra)

De acordo com o que aprendemos no Espiritismo[1], na consciência se encontram escritas as leis de Deus, sendo ela uma espécie de tribunal divino instalado em nós.

Ela não é um lugar, mas, psicologicamente falando, um modo de percebermos o que ocorre em nós e à nossa volta. Percebermos de forma espontânea, imediata ou de uma maneira reflexiva, especialmente quando pensamos com mais vagar em quem somos, como somos e os rumos que desejamos imprimir à nossa vida a partir das noções socialmente aceitas do que seja bom ou ruim, certo ou errado, bem ou mal.

Além de nos referirmos à consciência dando-lhe as características de espontaneidade e reflexão, podemos também identificar em sua constituição a presença de um sentido ético que nos permite examinar os próprios pensamentos, questionando nossas intenções e atos. Em nosso caso particular, se estamos agindo segundo os valores propostos pelo Cristianismo e restaurados pelo Espiritismo, tendo em vista que a moral espírita é a moral cristã.

Podemos dizer que o Espírito imortal, o ser inteligente da Criação[2], é uma consciência cósmica criada para evoluir, alcançar a perfeição de que é dotada por meio do desenvolvimento das suas potencialidades, etapa a etapa, através das sucessivas existências.

Tais existências nos permitem construir conhecimentos e acumular experiências, determinando pelo amadurecimento que já tenhamos alcançado, uma postura ingênua ou crítica diante de tudo aquilo que a vida nos apresente.

A ingenuidade aqui abordada não é sinônimo de simplicidade, pureza, mas por uma visão superficial e imatura de alguns aspectos da existência. Parafraseando o grande educador brasileiro, Paulo Freire (1921-1997), diremos que esta ingenuidade estando presente na personalidade de alguém, se manifestará da seguinte maneira:

1. A criatura tem a sensação de que tudo no passado era melhor.

2. Percebe que a vida é estática e não dinâmica, não registrando a impermanência das coisas.

3. Possui dificuldade em conseguir ver os seus e os problemas dos outros por diferentes ângulos.

4. Apresenta resistência ao progresso.

5. Tem uma compreensão mágica (fantasiosa) dos fatos.

6. Suas ações são motivadas principalmente por impulsos.

7. Raramente terá autocrítica.

A pessoa, tendo essa postura ingênua e sendo espírita, já estará na contramão do que o Espiritismo nos faz enxergar. Caso seja também evangelizadora da infância ou da juventude numa instituição espírita e pouco estude a Codificação, tenderá a agir mais ou menos assim, sem que essa postura seja matematicamente determinada:

1.      Grupará as crianças e jovens considerando apenas o critério da faixa etária.

2.      Negar-se-á trabalhar com histórias e textos que não tenham sido publicados no meio espírita ou priorizará apenas as fontes que nada tenham a ver com conteúdos doutrinários em defesa de uma visão livre e aberta.

3.      Deixará de abordar assuntos à luz do Espiritismo para abordá-los exclusivamente à luz das diferentes ciências.

4.      Não estabelecerá pontes entre os fatos sociais divulgados pelas diferentes mídias e as aulas de evangelização.

5.      No uso de material didático, limitar-se-á ao uso de apostilas, engessando a práxis (ação e reflexão) evangelizadora.

6.      Não encontrará tempo para participar de encontros e cursos de capacitação, tendo em vista a vasta experiência que considera tenha acumulado ao longo do tempo.

7.      Não estudará o Espiritismo vinculado a algum grupo, limitando o próprio estudo aos temas das aulas de evangelização.

8.      Colocar-se-á impermeável às ideias dos evangelizadores mais novos e às sugestões dos mais experientes.

9.      Acreditará que a finalidade precípua da evangelização espírita é formar novas gerações de espíritas.

10.    Transformará o espaço evangelizador num espaço semelhante ao escolar, com atitudes e práticas que são próprias da educação formal, sem nenhuma adequação e convergência aos objetivos buscados pelo processo evangelizador à luz do Espiritismo.

Como, então, assumir uma postura crítica compatível com as recomendações doutrinárias e com o progresso das ideias pedagógicas e psicológicas, de modo a imprimir maior qualidade na tarefa da evangelização espírita infanto-juvenil?

O caminho passa, inevitavelmente, pela convicção de que para evangelizar à luz do Espiritismo não basta qualquer coisa, ou seja, qualquer conteúdo, qualquer metodologia, quaisquer recursos, qualquer tempo, qualquer postura e qualquer boa vontade. É preciso mais, é necessário estudo, troca de ideias, conhecimento de outras práticas exitosas e engajamento sem fanatismo.

Além disso, uma boa dose de autoconhecimento é fundamental para que percebamos nossas sombras e trabalhemo-nos interiormente, de modo que essas não interfiram negativamente em nossa relação com os evangelizandos, seus familiares e demais companheiros da instituição espírita que frequentamos.

Como vemos, são múltiplas as frentes que requisitam cuidado e atenção de nossa parte para a transição de uma consciência ingênua e superficial em direção a uma consciência crítica e mais amadurecida.

É necessário que não fiquemos apenas registrando os adversários da causa, as dificuldades estruturais das famílias, a ausência de visão dos dirigentes espíritas do nosso centro e a falta de compromisso de certos evangelizadores. Pensemos também na atuação dos bons Espíritos, no bom trabalho que já fazemos e podemos aprimorar, nos companheiros com os quais podemos contar.

Com entusiasmo crescente por essa bela tarefa, sigamos convictos que Jesus não apenas abençoa, mas secunda os nossos esforços, provendo sempre todas as nossas necessidades.



[1] . O Livro dos Espíritos, Allan Kardec, questão 621.

[2] . Idem, questão 71.

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