Jornal Mundo Espírita

Julho de 2019 Número 1620 Ano 87

A conquista da maioridade espiritual do Brasil

maio/2008

O século XIX foi rico de avanços políticos, sociais, econômicos e religiosos para a nossa Nação.

A Independência que nos tirou do tacão colonialista de Portugal, deu-se em 1822. Em 1884 surgia a Federação Espírita Brasileira. A Proclamação da República, pondo fim a mais de 6 décadas de regime imperial e absolutista, marcou o ano de 1889. Em 1891, tínhamos a primeira Constituição do País…

Mas, poucos fatos renderam tantos frutos éticos para a nacionalidade como a libertação dos escravos.

Era o dia 13 de maio de 1888. Exatamente há 120 anos encerrava-se o mais negro período de nossa história.

Nessa época, tínhamos em todo o nosso território, segundo as estatísticas, mais de 720.000 escravos espalhados pelas fazendas e cidades, em condições abjetas.

Os benefícios produzidos pelas Leis do Ventre-Livre (1871) e dos Sexagenários (1885) não foram suficientes para aplacar o drama de nossos irmãos negros e a sede de justiça gritada em praça pública pelas vozes de homens notáveis como Castro Alves, Joaquim Nabuco, José do Patrocínio, entre outros.

O Brasil já contava, nesse período, com uma população aproximada de 14.000.000 de habitantes. A maioria esmagadora do povo, com o apoio declarado de espíritas do jaez de Bezerra de Menezes, Bittencourt Sampaio, Antonio Luiz Sayão, exigia o fim da execrável política de exploração de seres humanos.

Os maus tratos impostos aos africanos e aos seus descendentes feriam a sensibilidade das pessoas escrupulosas e enxovalhavam nosso País no Exterior. Espancamentos, abandono social, humilhações, correntes, algemas, violência sexual, execuções covardes, torturas cruéis, registrados pelos pintores e escritores geravam ondas de indignação incontrolável.

Havia riscos de uma guerra civil. A Espiritualidade Superior, sempre atenta, interfere, como narra Humberto de Campos em “Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho”, psicografia de Chico Xavier. Jesus convoca Ismael, governador espiritual do Brasil e lhe diz: “Ismael, o sonho de liberdade de todos os cativos deverá concretizar-se agora, sem perda de tempos. Prepararás todos os corações a fim de que as nuvens sanguinolentas não manchem o solo abençoado da região do Cruzeiro.”

Foi inspirado pelo notável benfeitor que o ministro João Alfredo, apesar de conservador, promove a votação da lei que poria término definitivamente à escravatura.

O imperador, D. Pedro II, adoentado, afasta-se do poder, cedendo-o à filha, princesa Isabel, que resoluta, assina a Lei Áurea.

José do Patrocínio, em arroubo de emoção, beija os pés da mandatária, arrastando-se de joelhos no meio da multidão.

Do alto dos prédios, no centro da cidade do Rio de Janeiro, então capital federal, flores eram jogadas, por onde passavam as carruagens do governo.

Mentores dedicados, associados aos corações idealistas encarnados, conseguiam a emancipação definitiva dos prisioneiros da ganância, em clima de paz, sem derramamento de sangue, em contraposição ao que ocorrera com os Estados Unidos da América do Norte, na trágica Guerra de Secessão que por longos anos dizimou mais de 2.000.000 de vidas.

A generosidade dos brasileiros, que contou com a compreensão dos governantes, fez a diferença.

Passados 120 anos, é justo que façamos nova e decisiva reflexão sobre a outra escravatura: a do preconceito. Há visíveis resquícios que precisam ser apagados de vez.

Para nós espíritas, fica o compromisso de prosseguirmos lutando, como fizeram os nossos antecessores, contra esse estigma ético de racismo injustificável.

Não seremos, tanto quanto desejamos, a “Pátria do Evangelho”, se não nos libertarmos dessa chaga, que insiste em limitar a ação de nossos irmãos de outras origens raciais.

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