Jornal Mundo Espírita

Setembro de 2019 Número 1622 Ano 87

A comunicação dos espíritos

agosto/2017 - Por José Passini

O profetismo é prática milenar, conforme se constata no verbete profeta, na Enciclopædia Britannica, na sua edição original.

Quando se fala em comunicação com os mortos, há dois pontos interessantes a serem observados: primeiro, há os que dizem ser tal prática condenada pela palavra de Deus, citando a proibição contida no Deuteronômio, cap. 18:10 a 13. Em verdade, não se trata de palavra de Deus, mas de recomendação pertencente à legislação mosaica; segundo, é interessante atentar-se para o fato de que a proibição comprova efetivamente o intercâmbio com os mortos, pois se existiu a proibição é porque existia o fato. É de senso comum que uma legislação que regula ou proíbe algo sempre surge a posteriori, e não a priori, ou seja, é feita sempre sobre um fato já existente. Logo, se Moisés proibiu é porque existia.

Deve ser lembrado de que a proibição de Moisés visava a coibir o abuso daqueles que mantinham o intercâmbio, usando-o para fins frívolos ou para a solução de problemas pertencentes à esfera das decisões dos homens e não dos Espíritos. Diga-se, de passagem, que o Espiritismo – que não proíbe nada – desaconselha o intercâmbio mediúnico para esses mesmos fins, esclarecendo que Espíritos superiores não se envolvem nesses assuntos, tão ao agrado de Espíritos frívolos e desocupados.

Há, também, aqueles que se baseiam na filosofia tomista, que afirma a imortalidade da alma, mas que esta não tem vida plena sem o corpo, considerando-o seu instrumento indispensável, a ser readquirido na ressurreição, para o julgamento final. Não se sabe como Tomás de Aquino explicaria o fato de dois Espíritos desencarnados, Moisés e Elias, sem corpo material, terem conversado com Jesus, na presença de Pedro, Tiago e João (Mat., 17:1 a 9)

Não vamos invocar o testemunho de cientistas que pesquisaram o fenômeno mediúnico e produziram farto material bibliográfico a respeito. Argumentaremos exclusivamente dentro da Bíblia, na tradução de João Ferreira d’Almeida, da Sociedade Bíblica Britannica e Estrangeira, edição de 1937. Citamos o ano da publicação pelo fato de essa mesma tradução já ter sofrido algumas atualizações.

No Velho Testamento, (I Sam., 28), sob o título Consulta à pitonisa de Endor, vemos uma autêntica comunicação do profeta Samuel, que fora, enquanto encarnado, conselheiro do rei Saul. Este, na iminência de uma batalha, ressentindo-se da ausência do seu conselheiro, que desencarnara, ordenou fosse procurada uma evocadora de Espíritos. Aparece-lhe Samuel, que o aconselha a não entrar na batalha contra os filisteus, sob pena de morrerem ele e seus filhos. Saul, que não fora buscar conselho, mas apoio, sentindo-se desamparado, caiu desmaiado. Embora seriamente advertido, entrou na batalha, onde pereceu, juntamente com seus filhos.

No Novo Testamento (At., 16:9), há o relato de uma visita feita a Paulo, por um homem que, liberto do corpo físico pelo sono, comunicou-se com ele: E Paulo teve de noite uma visão, em que se apresentou um varão da Macedônia, e lhe rogou, dizendo: Passa à Macedônia, e ajuda-nos. Nos versículos seguintes, vê-se que Paulo foi atender o pedido, vez que encaminhou-se à Macedônia.

Em Atos (10:30 a 32), está claramente relatada a comunicação de um Espírito desencarnado, diretamente dirigida a um homem, sem ao menos usar o corpo físico de um médium, conforme relato do centurião Cornélio a Pedro: Há quatro dias estava eu em jejum até esta hora, orando em minha casa, à hora nona, e eis que diante de mim se apresentou um varão com vestes resplandecentes, e disse: “Cornélio, a tua oração foi ouvida, e as tuas esmolas estão em memória diante de Deus. (…) e manda chamar Simão, que tem por sobrenome Pedro: este está em casa de Simão, o curtidor, junto do mar, e ele, vindo, te falará.”

Pedro estava no terraço da casa de Simão, o curtidor, quando chegou a comitiva que viera convidá-lo. No momento em que chegaram os enviados de Cornélio, Pedro recebe a seguinte orientação de um Espírito: Levanta-te pois, e desce, e vai com eles, não duvidando; porque eu os enviei. Essa comunicação foi oportuna porque Pedro não atenderia o chamado de um romano, pelo fato de os discípulos de Jesus acreditarem, até àquela época, que a mensagem de Jesus deveria ser divulgada somente entre os judeus.

Outra comunicação de Espíritos se deu com as mulheres que foram preparar o corpo de Jesus para a sepultura, na manhã daquele memorável domingo: E, entrando, não acharam o corpo do Senhor Jesus. E aconteceu que, estando elas perplexas a esse respeito, eis que pararam junto delas dois varões, com vestidos resplandescentes (…) lhes disseram: “Por que buscais o vivente entre os mortos?” (Lc., 24:3 a 5)

É interessante notar que os Espíritos, em vários relatos no Novo Testamento, apareceram com vestes resplandescentes, talvez para que não ficassem dúvidas de que se tratava mesmo de Espíritos desencarnados.

A comunicação recebida pelo centurião Cornélio também demonstra esse mesmo cuidado observado pelo Espírito comunicante, conforme se depreende do relato do romano a Pedro, na passagem acima citada.

O Apóstolo Paulo – a maior autoridade em assuntos mediúnicos nos tempos apostólicos – deixou instruções seguras a serem seguidas por aqueles que pretendessem estabelecer o intercâmbio, como se lê na sua Primeira Carta aos Coríntios: Segui a caridade, e procurai com zelo os dons espirituais, mas principalmente o de profetizar. (14:1) Num trecho desse mesmo capítulo, que o tradutor intitula: A necessidade de ordem no culto, está perfeitamente caracterizada uma reunião mediúnica, para a qual Paulo dá orientação segura, no sentido de preservar a objetividade, precavendo-se contra o estrelismo dos médiuns: E se alguém falar língua estranha, faça-se isso por dois, ou quando muito por três, e por sua vez, e haja intérprete. (27) E, a fim de evitar o deslumbramento, deixa outra recomendação: E falem dois ou três profetas e os outros analisem. (29) No capítulo 12, descreve os vários tipos de mediunidade, como seja, a psicofônica, a de falar línguas estranhas, a de cura e até a intuitiva – a ser exercitada pelo dirigente da reunião mediúnica, que ele intitula o dom de discernir os espíritos.

Cumpre notar, também, que Jesus não disse uma palavra sequer no sentido de condenar a comunicação com os mortos, pois seria uma incoerência, diante do fato, citado acima, narrado por três Evangelistas (Mt., 17:1 a 9; Mc., 9:2 a 13; Lc., 9:28 a 36), que se referem ao diálogo que Jesus manteve com dois desencarnados: Moisés e Elias, na presença de Pedro, Tiago e João.

A Enciclopædia Britannica diz que profeta em grego clássico quer dizer aquele que, ao falar, não o faz pelos seus pensamentos, mas por uma revelação de fora. Cita Platão: Não devem ser chamados profetas aqueles que simplesmente interpretam oráculos.

Em verdade, em todo o Novo Testamento não há uma linha sequer condenando a comunicação com os mortos. A literatura existente nesse sentido provém das interpretações equivocadas de teólogos que veem os fatos como lhes convêm.

Além do mais, não há mortos, mas apenas Espíritos encarnados e desencarnados.

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