Jornal Mundo Espírita

Abril de 2021 Número 1641 Ano 89

A cegueira dos fariseus

março/2021 - Por Cristiane Lenzi Beira

O Evangelho de João1 descreve uma das curas operadas por Jesus: a de um cego de nascença. O ponto principal do acontecimento narrado, no entanto, extrapola a cura em si. Algo muito importante e significativo surgiu, como consequência da restauração da visão daquele homem: o dilema no qual se envolveram alguns fariseus que tomaram conhecimento do sucedido.

Naturalmente, a cura gerou espanto naquela comunidade e as pessoas que conheciam o cego de nascença o levaram, então, aos fariseus, para que verificassem o milagre. Nesse momento, o dilema se instalou, porque aqueles que estavam sendo consultados não conseguiam compreender como um homem que não é de Deus, um pecador, segundo seu julgamento, seria capaz de fazer uma cura:2 … alguns dos fariseus diziam: este homem [Jesus] não é de Deus, pois não guarda o sábado. Diziam outros: como pode um homem pecador fazer tais sinais? E havia dissensão entre eles.

Os fariseus, representantes da religião judaica, consideravam-se mandatários de Deus e conhecedores de Seus desígnios. Tinham argumentos e explicações para quaisquer situações e se afirmavam apoiados em sólidas estruturas bíblicas. Em seu ponto de vista não haveria possibilidade de um homem de Deus trabalhar aos sábados. Isso representaria uma afronta às suas crenças. Por esse e outros motivos similares, chegaram à conclusão de que Jesus não poderia ser um enviado de Deus, uma vez que não seguia alguns de seus dogmas. Mais fácil do que questionar suas próprias tradições e crenças, diante do inesperado e diferente, seria condenar aquele que não se encaixava em seus preceitos.

Interessante notar a atualidade desse enredo. Mudam o cenário, as pessoas, o tempo e, no entanto, continuamos vivenciando essa mesma dinâmica:

  1. temos certeza de nossas convicções, cobertos de fatos científicos ou argumentos doutrinários favoráveis a elas;
  2. porém, vez ou outra nos deparamos com situações e personalidades que nos causam desagrado e nos desafiam o status quo, por se oporem ao nosso modo de pensar;
  3. então, temos a oportunidade de agir de acordo com nosso livre-arbítrio, ora aproveitando a oportunidade para ampliar a consciência, agregando novos pensamentos, compreendendo a limitação de nossa sabedoria ou até ratificando nossa visão de vida, agora com mais propriedade, ora, infelizmente, mantendo-nos inflexíveis, elegendo aquele que contraria nossas convicções como inimigo que precisa ser exterminado.

 

No caso narrado no Evangelho, os fariseus não aceitaram o convite da vida e perderam a oportunidade de alargar sua sabedoria, com a convivência próxima a Jesus. Preferiram manter-se rígidos em suas certezas e dogmas, elaborando meios de exterminar a vida dAquele que afrontava suas convicções.

O medo de estarmos errados talvez seja a grande explicação para essa tendência a lutarmos contra tudo que se oponha ao nosso modo de ver e entender a vida. O erro, apesar de ser mecanismo evolutivo de desenvolvimento, não costuma ser bem tolerado. Inexplicavelmente, não lidamos com o erro como natural e inevitável, mas como algo absurdo, fruto da maldade, esquecendo-nos que nem todo erro é efeito da intenção de se causar o mal. Muitos de nossos equívocos têm origem no fato de ainda não sermos perfeitos.

Se os fariseus estivessem mais conscientes disso, de que não sabiam tudo e não eram donos da verdade, teriam podido desfrutar da raríssima oportunidade de aprender com Jesus em pessoa. É muito simbólico o fato de que é o próprio cego de nascença que lhes chama a atenção para a grandeza de Jesus, possibilitando-lhes uma mudança de postura, conforme se observa na resposta que lhes dá, diante da insinuação que fizeram, de que Jesus não vinha da parte de Deus. Ao invés de combaterem o Mestre de Nazaré, poderiam ter enriquecido sua sabedoria com Ele, simplesmente analisando a situação:3 Ora, nós sabemos que Deus não ouve a pecadores; mas, se alguém é temente a Deus, e faz a Sua vontade, a esse ouve. Desde o princípio do mundo nunca se ouviu que alguém abrisse os olhos a um cego de nascença. Se este não fosse de Deus, nada poderia fazer. Responderam eles, e disseram-lhe: Tu és nascido todo em pecados, e nos ensinas a nós? E expulsaram-no.

A cegueira dos fariseus era tão grande, no entanto, que alegavam a falta de lógica justamente onde a lógica provava a nobreza espiritual de Jesus. Qual explicação seria mais coerente: Jesus não poderia vir de Deus porque curava aos sábados ou Jesus certamente vinha de Deus porque era capaz de fazer curas milagrosas?

Se fôssemos mais tranquilos com relação à possibilidade de estarmos enganados em nossas convicções e menos suscetíveis a sofrer diante dos erros praticados, então teríamos maiores condições de aprender e menores chances de estagnarmos, perdendo oportunidades importantes.

A filosofia aristotélica nos apresenta um conceito bastante interessante e que pode nos ajudar em nossa dificuldade ancestral em admitir o erro, justamente por nos lembrar da naturalidade da imperfeição humana. Hamartia, nas tragédias gregas, era definida como o erro cometido pelo personagem principal, conduzindo-o ao enfrentamento da peripécia e possibilitando, posteriormente, a catarse.

A peripécia seria aquilo que deu errado, o problema, o infortúnio gerado pelo erro de caráter do personagem. Ao se ver obrigado a lidar com a peripécia, ele poderia vivenciar a catarse, ou seja, uma espécie de purgação ou purificação.

O herói, então, ainda que valente, forte e corajoso, trazia algum tipo de falha de caráter, porque não era perfeito. Essa sua fragilidade costumava lhe promover algum tipo de problema (peripécia) que, ao ser enfrentado, promovia-lhe uma transformação positiva (catarse).

As tragédias baseadas na filosofia aristotélica, então, descrevem a jornada de crescimento do herói, reconhecendo seus erros de caráter, para poder purificá-los. É o equivalente à reforma íntima, proposta pelo Espiritismo: identificar as más tendências a fim de extingui-las, bem como ao conceito de individuação, da Psicologia Junguiana, que propõe a conscientização das sombras (complexos e conflitos), integrando-as ao Si-mesmo e possibilitando ao indivíduo um maior amadurecimento psicológico.

Por isso, mais importante do que provarmos que estamos certos, rígidos e inflexíveis em nossos pontos de vista, é nos lembrarmos que somos seres humanos imperfeitos, suscetíveis ao erro, que é, inclusive, mecanismo de progresso por nos permitir a conscientização a respeito do que ainda não sabemos. Nossa visão de vida, em virtude de nosso grau de evolução, nada mais é que4 um prisma psíquico adquirido pela nossa “leitura fenomenológica do mundo”, ou seja, como um amálgama da nossa experiência da nossa família de origem, do nosso contexto cultural e ferida individual, conduzindo-nos a ver o mundo de uma maneira tendenciosa. Portanto, é fundamental que estejamos abertos a outras formas de visão de vida, conscientes de que obviamente, estaremos eternamente sujeitos à estreiteza desse foco, a não ser que o tornemos consciente e ampliemos nossa perspectiva.

Raul Teixeira nos recomenda, também, ir além de apenas conhecermos a verdade no sentido cognitivo. Ele sugere que nos mantenhamos abertos às possibilidades para nos deixar transformar pela verdade, ampliando nosso próprio ser:5

A partir do momento que ingerimos a verdade e passamos a metabolizá-la em nosso raciocínio, em nosso discernimento, em nosso sentimento, passamos a ter vontade de sermos melhores. Passamos a trabalhar para isso. Passamos a entender as coisas de um outro ângulo e começamos a nos libertar. Já não temos mais medos, já não queremos nos corromper com as drogas, nem nos infelicitar com nosso temperamento rebelde, frio ou maligno.

Assim sendo, é crucial estarmos atentos quanto às cegueiras observadas no mundo. No trecho evangélico, aquele que era fisiologicamente cego, viu a verdade de Jesus, enquanto aquele que dizia ver as verdades de Deus, demonstrou-se cego, simbolicamente falando, incapaz de identificar o próprio Messias.

E disse-lhe Jesus:6 Eu vim a este mundo para juízo, a fim de que os que não veem vejam, e os que veem sejam cegos. E aqueles dos fariseus, que estavam com ele, ouvindo isto, disseram-lhe: Também nós somos cegos? Disse-lhes Jesus: Se fôsseis cegos, não teríeis pecado; mas como agora dizeis: Vemos; por isso o vosso pecado permanece.

 

Referências:

  • BÍBLIA, N. T. João. Português. O novo testamento. Tradução de João Ferreira de Almeida. Rio de Janeiro: Imprensa Bíblica Brasileira, 1966. cap. 9, vers. 1-41.
  • cit. cap. 9, vers. 16.
  • cit. cap. 9, vers. 31-34.
  • HOLLIS, J. Os pantanais da alma: nova vida em lugares sombrios. São Paulo: Paulus, 2013. p. 165.
  • TEIXEIRA, Raul. Vida e valores. Curitiba: FEP, 2020. v. 3, pt. 3, cap. 11.
  • BÍBLIA, N. T. João. Português. O novo testamento. Tradução de João Ferreira de Almeida. Rio de Janeiro: Imprensa Bíblica Brasileira, 1966. cap. 9, vers. 39-41.
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