Jornal Mundo Espírita

Abril de 2020 Número 1629 Ano 88
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A cantora do Espiritismo

dezembro/2019 - Por mary Ishiyama

Também chamada de poetisa das violetas. Wallace Rodrigues a descreve como uma mulher de aparência débil, quase cega, paupérrima, dotada de extraordinária humildade, que nos diz que não é preciso um gigante para manter de pé um edifício, mas, simplesmente, uma inquebrantável vontade.

Amalia Domingo Y Soler nasceu em Sevilha, Espanha, em 1835. Não conheceu seu pai. Aos oito dias, ficou cega. Após três meses, um farmacêutico local conseguiu reverter o quadro mas o problema visual a acompanharia até o final dos seus dias.

A mãe temia pelo seu futuro e cedo a alfabetizou. Aos cinco anos, Amalia lia corretamente, aos dez, escreveu suas primeiras poesias e aos dezoito, publicou algumas.

Com a morte de sua mãe, grande companheira de sua vida, teve início uma fase muito difícil. Seus recursos praticamente se esgotaram com os tratamentos. Os demais familiares propuseram que Amalia, aos vinte e cinco anos, se casasse com um homem mais velho, financeiramente estável. Ou entrasse para o convento. Não aceitando nenhuma das opções, ela seguiu para Madrid, na esperança de conseguir um emprego e sobreviver de suas poesias.

Passou fome, precisou recorrer a instituições de caridade. A solidão, a penúria, a visão que a cada dia se apagava a levaram a pensar em suicídio. Em uma noite de grande amargura, sua mãe lhe apareceu, causando-lhe viva impressão. Amalia se recordou das orações que faziam juntas e foi em busca de Deus. Passou por algumas religiões, que não lhe preencheram o vazio.

Devido ao exaustivo e mal pago trabalho como costureira, as longas noites que passava escrevendo, lhe causaram significativa piora na visão. Tinha dificuldade em manter as pálpebras erguidas e a medicina lhe previu a cegueira.

O médico homeopata, Dr. Hysern, lhe forneceu gratuitamente medicamentos e a salvou da cegueira total. Embora se declarasse materialista, ele lhe entregou um exemplar do jornal espírita El Critério, que circulava na época.

Ao terminar a leitura, Amalia pesquisou sobre aquela doutrina, escreveu poesias para o jornal, que não foram publicadas.  No entanto, o editor, Visconde de Torres Solanot, a presenteou com um livro espírita, Preliminares del Espiritismo.

Amalia começou a sentir sensações físicas que a deixavam inquieta, febril, com dores de cabeça. Certa noite, ouviu vozes que repetiam: Luz! Luz! Luz! Chorando convulsivamente, olhou-se no espelho e seus olhos estavam abertos como há muito tempo não acontecia. Tremendo, gritou: Será chegado o momento da libertação? Voz doce e terna ecoa no ambiente: Sim! Sim!

Era o fim de sua cegueira espiritual.

Seu primeiro poema publicado foi no periódico La Revelación, da cidade de Alicante. Seu primeiro artigo, A fé espírita,  publicado em 1872, pelo El Critério, foi muito bem aceito.

Em abril de 1874, na Federação Espírita Espanhola, nas atividades para as comemorações ao aniversário de Allan Kardec, Amalia leu sua poesia A la Memoria de Allan Kardec.  O vice- presidente Alejandro Benisia, olhando firmemente para ela, disse aos homens presentes que, na reunião seguinte, ela teria um tempo para expor as coisas guardadas naquela cabecinha. Foi o romper das barreiras que havia entre homens e mulheres.

Amalia se tornou notável escritora, oradora, intelectual e polemista. Não dispondo de recursos para aquisição de livros e periódicos e assim aprender mais, foi presenteada com a coleção completa de Allan Kardec pelo líder do movimento espirita espanhol, Fernandez Colavida.

Em uma reunião mediúnica, sua mãe se manifestou, afirmando que jamais Amalia estivera sozinha, que ela velava seu sono, guiava seus passos, que a demovera do suicídio e que lhe murmurava, com muito carinho, ao ouvido: Sofre e espera.

Amalia tornou-se ferrenha defensora do Espiritismo, participou de grandes embates com padres e bispos da Espanha. Em maio de 1879, assumiu a direção de um periódico destinado às mulheres, La luz del Porvenir. Publicou o artigo A ideia de Deus, que provocou a ira da Igreja e a suspensão do periódico por quarenta e duas semanas. Durante essa suspensão, foi publicado um substituto El Eco de la Verdad.

Ela quebrou tabus, abriu espaço para as mulheres. Quando morreu seu amigo Fernandez Colavida, considerado o Kardec espanhol, apesar de não ser costume as mulheres acompanharem o féretro, ela não só acompanhou o do amigo, como declamou sentida poesia no momento do sepultamento.

Até 1891, Amalia escreveu 1286 artigos que foram publicados em periódicos na Espanha e no Exterior: El Critério e El Espiritismo, de Madri; La Gaceta de Cataluña, La Luz del Porvenir e na Revista de Estudos Psicológicos, de Barcelona; La Revelación, de Alicante; El Espiritismo, de Sevilha; La Ilustración Espirita, do México; La Ley del Amor, de Mérida de Yucatán; La Revista Espiritista, de Montevidéu; La Constancia, de Buenos Aires; os Annali dello Spiritismo, na Itália; El Buen Sentido, de Lérida e outros dos quais não há mais registro.5

No Brasil, é reconhecida pelo livro Memórias do Padre Germano, que era seu mentor espiritual.

A mulher que cantou o Espiritismo, através de poesias tristes, encontrou, com certeza, alegria na madrugada do dia 29 de abril de 1909, ao retornar à pátria espiritual como alguém que cumpriu sua tarefa com fé e deixando muita esperança aos que ficaram.

 

Referências:

  1. SOLER, Amália Domingo. Contos espíritas. São Paulo: Madras, 2004.
  2. MINI-BIOGRAFIA. Presença Espírita, Salvador, ano IV, n. 45, p. 22, nov. 1977.
  3. RODRIGUES, Wallace L. V. Amália Domingo Soler – sua grandeza espiritual. Anuário Espírita, São Paulo, IDE, ano VI, n. 6, p. 187-195, 1969.
  4. http://feparana.com.br/topico/?topico=495
  5. https://www.febnet.org.br/wp-content/uploads/2012/06/Amalia-Domingo-Soler.pdf
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