Jornal Mundo Espírita

Maio de 2019 Número 1618 Ano 87

A caminho da luz

outubro/2016 - Por Rogério Coelho

Amados, agora somos filhos de Deus, e ainda não é manifestado o que havemos de ser.
Mas sabemos que, quando Ele se manifestar, seremos semelhantes a Ele. 
I João, 3:2

Esta assertiva joanina faz eco com o registro das palavras de Jesus, colhidas pelo Apóstolo Mateus1: Sede perfeitos, como per­feito é o Pai Celestial.

Consoante ensino de Allan Kardec2: essa proposição [acima], tomada ao pé da letra, pressuporia a possibilidade de atingir-se a per­feição absoluta. Se à criatura fosse dado ser tão perfeita quanto o Criador, tornar-se-ia ela igual a Este, o que é inadmissível. Mas, os homens a quem Jesus falava não compreen­deriam essa nuança, pelo que Ele se limitou a lhes apresentar um modelo e a dizer-lhes que se esforçassem pelo alcançar.

Aquelas palavras, portanto, devem enten­der-se no sentido da perfeição relativa, a de que a Humanidade é suscetível e que mais a aproxima da Divindade.

Em que consiste essa perfeição? Jesus o diz: “Em amarmos os nossos inimigos, em fazermos o bem aos que nos odeiam, em orar­mos pelos que nos perseguem”.

Ele mostra desse modo que a essência da perfeição é a caridade na sua mais ampla acepção, porque implica a prática de todas as outras virtudes.

A busca pela transcendência cósmica foi o que deve ter motivado o aparecimento das religiões. A própria palavra religião, originá­ria do latim religare, etimologicamente signifi­ca re-ligar, isto é reunir-se a Deus. Muito antes do surgimento do Cristianismo o homem já buscava essa identificação transcendental.

Vejamos o que afirma Elizabeth C. Prophet3: (…) os arianos desafiavam a ira do imperador quando ensinavam as pessoas a tornarem-se Filhos de Deus. Os origenistas foram expulsos dos seus monastérios por pra­ticarem a união com Deus. Os cátaros foram queimados vivos por acreditarem que pode­riam ser transformados em anjos. No entan­to, hoje alguns estudiosos estão chegando à conclusão de que ideias como estas podem ter feito parte do Cristianismo original, isto por­que o mundo em que o Cristianismo nasceu alimentava uma grande variedade de ideias sobre a união divina, pois no misticismo judaico, assim como nas religiões de misté­rio da Grécia, Roma e Egito, as pessoas bus­cavam uma identificação pessoal com Deus. Tentavam obtê-la de várias maneiras e uma delas era praticando uma jornada espiritual, conhecida como “elevação”.

Algumas vezes os místicos descreviam a elevação não como uma jornada em direção ao Céu, mas em direção ao interior, aos espa­ços sagrados do coração.

Ser em Cristo

Segundo Prophet3, em II Coríntios, Paulo descreve um processo de glorificação que se assemelha a um trecho do segundo livro de Enoque. Enoque é trazido diante “do Senhor”, um ser divino sentado num trono. Na visão, o arcanjo Miguel “arranca” de Enoque suas “vestes terrenas”, unge-o com óleo e o envol­ve em “vestes de glória”.

Paulo usa a mesma metáfora para “trans­formação”, usada por Enoque – e refere-se à troca de vestes terrenas por vestes celestiais. Apresenta o contraste entre viver “em um tabernáculo terrestre” (provavelmente corpo mortal) e viver em morada eterna e celestial. Compara os dois modos de existência com as vestes “pois neste tabernáculo gememos, dese­jando ser revestidos da nossa habitação, que é do Céu… não porque queremos ser despidos, mas revestidos [na nossa morada celestial], para que o mortal seja absorvido pela vida.

As duas passagens falam da troca de ves­tes para descrever a entrada num novo estado. Para Enoque, isto significava ser “absorvido pela vida”. Paulo substituiu simplesmente o ser divino do misticismo judaico pelo Cristo. Assim, podemos concluir que, quando Paulo ensinou as pessoas a revestirem-se de uma habitação celestial, queria dizer que deviam buscar a unidade com o ser divino – com o Cristo.

As passagens em que Paulo descreve o ser “em Cristo” oferecem outras evidências de que ele nos exortava a buscar a união com o Cristo. Na interpretação tradicional, ser em Cristo significava ser cristão e estar unido ao corpo dos cristãos na Terra.

A definição que mais bem se adapta às descrições de Paulo é a de que estar em Cristo significa “estar identificado com Cristo”, e a mensagem mais importante que podemos extrair de suas cartas é que Jesus foi o protóti­po de todo cristão.

Optando pela ascensão

Conclui Prophet3 que a prática das boas obras (caridade) acelera o processo de nossa identificação com Deus. Enquanto não logra­mos tal identificação somos (de alguma for­ma) prisioneiros da mortalidade, isto é, das limitações da existência humana, do tempo e do espaço…

Se a nossa meta na vida for a união com Deus, o próximo passo será descobrir como transmudar o nosso carma. Podemos pedir ao nosso Eu Superior [o Eu Crístico] que nos mostre a melhor forma de superar os erros do passado. Existem pessoas a quem precisa­mos ajudar e servir. Algumas [devido ao nosso carma] têm de fazer parte da nossa família. Outras, a própria vida se encarregará de que as encontremos.

Se o trabalho ficar incompleto o carma nos trará de volta à cinzenta existência huma­na depois de deixarmos esta vida.

O corpo humano pode ser comparado a uma gaiola com milhares de pássaros – um deles muito especial, a alma. A alma não pode deixar a gaiola (o corpo material) até que os outros pássaros (as obrigações cármicas) tenham desaparecido. Sempre que se pratica uma boa ação ou se tem um pensamento posi­tivo, um pássaro é libertado. E um dia, quando menos esperarmos, todos os pássaros estarão livres e o último pássaro, a alma, ficará livre para deixar a gaiola e voar em direção ao Sol, à imarcescível e permanente união com Deus.

Com estas ilações, podemos compreen­der com mais clareza as seguintes palavras de Jesus4: Para que todos sejam um, como tu, ó Pai, o és em mim, e eu em ti; que também eles sejam um em nós, para que o mundo creia que Tu me enviaste.

 

Bibliografia:

1. BÍBLIA N. T. Mateus. Português. Bíblia sagra­da. Tradução de João Ferreira de Almeida. Campinas: Os Gideões Internacionais do Brasil, 1988. cap. 5, vers. 48.

2. KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. 125. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2006. cap. XVII, item 2.

3. PROPHET, Elizabeth Clare. Reencarnação – O elo perdido do Cristianismo. Nova Era, 1997.

4. BÍBLIA N. T. João. Português. Bíblia sagrada. Tradução de João Ferreira de Almeida. Campinas: Os Gideões Internacionais do Brasil, 1988. cap. 17,

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