Jornal Mundo Espírita

Dezembro de 2020 Número 1637 Ano 88

A caixa

julho/2015 - Por Maria Helena Marcon

O que você faria se estivesse em grandes apuros financeiros e lhe fosse ofertada a possibilidade de ganhar uma grande soma em dinheiro?

Você seria capaz de esquecer a ética, a moral, os seus valores pessoais para ganhar a fortuna?

Se você precisasse da quantia para propiciar felicidade a um ser amado, lhe pagando uma cirurgia plástica, que lhe retiraria um defeito físico que o atormenta, talvez uma prótese que lhe permitirá retornar a viver melhor, você esqueceria seus princípios nobres para alcançar o intento?

Este é o mote do filme A caixa, lançado em 2009, roteiro e direção de Richard Kelly. Um homem aparece com uma caixa à porta da casa. Para conseguir um milhão de dólares, bastará abri-la e apertar o botão. Um detalhe, no entanto, é crucial: ao apertar o botão, a pessoa estará determinando a morte de alguém, no mesmo instante. Esse alguém, próximo ou distante, vizinho da rua ou desconhecido, será morto por outrem. Um milhão de dólares por uma vida.

No dia seguinte, o homem retornará à casa com uma maleta, com todo o dinheiro prometido e levará a caixa consigo. O teste continua, ofertando-a a outro e outro, numa sequência sem fim.

A grande pergunta é: poder-se-á prosseguir a viver com a certeza de ter sido a causa voluntária da morte de alguém? Como será viver com o remorso de ter sido o responsável pela retirada de uma vida? Quem seria: um assassino cruel, aguardando a sentença de morte, em um prisão especial? Um pai de família amoroso e bom? Uma mãe zelosa e protetora?

E por qual morte será responsável quem apertar o botão? Lendo as manchetes do jornal, que trazem as notícias de assassinatos, de inúmeras mortes bruscas e misteriosas, se perguntará de qual deles é o agente?

O filme é daqueles que apresentam seres de outros planetas, que estão na Terra para testarem a Humanidade, a fim de verificar se ela merece ou não continuar a viver neste planeta ou se deve, como uma raça da maldade, ser exterminada do cômputo do Universo.

Parece uma alusão ao que ocorre no mundo de transição, de forma natural: os homens vão deixando a vida, cada qual a seu tempo. Mas, somente retornarão ao planeta, reencarnados, aqueles Espíritos que estiverem dispostos a atender a nova ordem, a do mundo em regeneração.

Lances de humanos que estão dominados pelas mentes interplanetárias, humanos que desaparecem como autômatos, levados para um lugar desconhecido, são outras constantes.

Ficção e suspense à parte, pusemo-nos a meditar a respeito. O filme mostra que todos os que receberam a caixa, normalmente casais em grandes dificuldades, ficam em extremo dilema, mas sempre a mulher aperta o botão.

É a alusão à alegoria bíblica da queda de Adão e Eva. É a mulher quem cede à tentação da serpente, come a maçã e depois envolve o homem, levando-o de roldão na tragédia da perda do paraíso. Uma visão ainda e sempre machista de que tudo que se sofre na Terra se deve à decisão equivocada da mulher.

É ela quem decide pelo casal, é ela quem toma a decisão equivocada, é ela quem se precipita e, com isso, atrai a desgraça para o lar. Sim, porque a partir do momento em que o dinheiro passa a ser usufruído, com ele chegam, conforme avisara o mensageiro da caixa, as consequências funestas.

Sim, a cada ação corresponde uma reação. A cada um segundo as suas obras.

O que é inverossímil no filme é que não há retorno, não há volta. Ou seja, feita a escolha errada, as consequências se sucedem como em uma catadupa de acontecimentos infelizes para si e os próximos, sem que nada possa ser alterado, remediado.

Nem arrependimento, nem desejo de reparação, nada vale. Aí é que vemos o grande engano, pois aprendemos que Deus sempre perdoa. Para isso, nos concede o dia seguinte, nos propicia a oportunidade da reparação. E, se não for possível nesta vida, tudo se poderá concretizar na próxima, tornando a reunir os envolvidos. Nenhuma falta que não possa, logo ou mais tarde, ser reparada.

Conforme o Código Penal da Vida Futura (O céu e o inferno, cap. VII, 16º item), o arrependimento é o primeiro passo para o melhoramento. Mas ele apenas não basta, sendo necessárias ainda a expiação e a reparação. Arrependimento, expiação e reparação são as três condições necessárias para apagar os traços de uma falta e as suas consequências.

Interessante de se notar, igualmente, que, de modo geral, quando o assunto, nos filmes, trata de seres de outros planetas, a tendência é colocá-los como seres enigmáticos, perversos, dominadores. Eles desejam reformar os demais, ou seja, os humanos. Mas, não tratam de olhar a si mesmos, verificando a sua própria impiedade.

Eles decidem o que é melhor para o nosso planeta, sem olharem para suas próprias deficiências. O que nos fala da tecnologia sem moral, que pode servir a muitos propósitos, mas acaba sendo utilizada para os próprios interesses.

Nesse particular, ainda dois aspectos a ressaltar. Primeiro, exatamente, como nos registros bíblicos, o homem imagina o outro à sua imagem e semelhança. Foi assim que concebeu Deus como vingativo, parcial, amando a uns filhos e odiando a outros, mandando Seu fogo vingador sobre os que não executam a Sua vontade plena. Ou pragas terríveis para submeter aqueles que pretendem desobedecer os Seus desígnios supremos.

Assim, continuamos a imaginar que os seres de outros planetas, mesmo de outras galáxias, sejam tão maus ou piores do que nossas mais torpes imperfeições.

Segundo, não acreditamos na renovação do ser. E o filme retrata isso muito bem, onde a vontade de acertar, a dedicação à família, o amor ao semelhante que se manifesta, de alguma forma, nada vale. Quem errou, está condenado para sempre à danação.

Isso diz da nossa forma de registrar as faltas alheias. Quem nos ofende, quem pratica o mal, não merece perdão.  Esquecemos de que Deus nos permite o dia seguinte, as horas renovadas para repararmos nossos atos equivocados. No dizer de Pedro, o Apóstolo: O amor cobre a multidão dos pecados. (I Pedro, 4:8)

As Experiências de Quase Morte – EQM, embora com outra denominação, ou seja, de verdadeira morte, são mostradas na trama cinematográfica. Ao contrário, no entanto, do que revelam as atuais experiências, a pessoa retorna à vida com outra personalidade, disposta a ser servidor daquele mensageiro vingador que continua com seus testes.

O filme não deixa de levar a uma grande ponderação: temos a liberdade para as nossas escolhas, mas todas elas nos remetem às devidas consequências.

A caixa, em verdade, é apenas um símbolo. Em certo momento, é dito que o ser humano é cercado de caixas. Ele vive em uma caixa, sua casa; ele trabalha em uma caixa, a empresa ou escritório; ele vai para casa e fica hipnotizado em frente a outra caixa, a televisão. Por fim, ao morrer, é encerrado em uma caixa para ser enterrado. Uma forma simplista de definir a grandiosidade da vida terrena. Também para nos alertar a não vivermos enquadrados no que determina a sociedade, simplesmente, sem pensar, sem ponderar, sem desejar para si algo diferente dos demais.

Afinal, o que se deseja: adquirir propriedades, carros luxuosos e do ano, realizar grandes viagens, vestir-se com as mais famosas grifes? Ou crescer em qualidade interior, aprimorar o intelecto, viver com dignidade?

Como sempre que nos dispomos a ter olhos de ver e ouvidos de ouvir, há muito a reflexionar, assistindo o filme. Além da ficção, do suspense, as ponderações bem críticas: o que desejamos da vida? Como estamos vivendo a nossa jornada reencarnatória? Até onde vai a nossa moral?

Muito a pensar. Uma boa proposta de autoexame, talvez exatamente nos moldes propostos pelo Espírito Santo Agostinho, em O livro dos Espíritos, item 919: Fazei o que eu fazia, quando vivi na Terra: ao fim do dia, interrogava a minha consciência, passava revista ao que fizera e perguntava a mim mesmo se não faltara a algum dever, se ninguém tivera motivo para de mim se queixar. Foi assim que cheguei a me conhecer e a ver o que em mim precisava de reforma. Aquele que, todas as noites, evocasse todas as ações que praticara durante o dia e inquirisse de si mesmo o bem ou o mal que houvera feito, rogando a Deus e ao seu anjo de guarda que o esclarecessem, grande força adquiriria para se aperfeiçoar, porque, crede-me, Deus o assistiria. Dirigi, pois, a vós mesmos perguntas, interrogai-vos sobre o que tendes feito e com que objetivo procedestes em tal ou tal circunstância, sobre se fizestes alguma coisa que, feita por outrem, censuraríeis, sobre se obrastes alguma ação que não ousaríeis confessar. Perguntai ainda mais: “Se aprouvesse a Deus chamar-me neste momento, teria que temer o olhar de alguém, ao entrar de novo no mundo dos Espíritos, onde nada pode ser ocultado?”

Examinai o que pudestes ter obrado contra Deus, depois contra o vosso próximo e, finalmente, contra vós mesmos. As respostas vos darão, ou o descanso para a vossa consciência, ou a indicação de um mal que precise ser curado.

Ficha técnica:

Gênero: Suspense

Direção: Richard Kelly

Roteiro: Richard Kelly

Elenco: Cameron Diaz, Frank Langella. Andria Blackman, Gillian Jacobs, James Marsden, James Rebhorn

Produção: Dan Lin, Kelly McKittrick, Richard Kelly, Sean McKittrick

Fotografia: Steven B. Poster

Trilha Sonora: Owen Pallett, Régine Chassagne, Win Butler

Duração: 115 min.

Ano: 2009

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