Jornal Mundo Espírita

Outubro de 2020 Número 1635 Ano 88

A atualidade do sim, sim; não, não

outubro/2020

No Evangelho de Mateus, capítulo 5, encontramos uma das exortações mais lindas e poéticas de Jesus: o sermão das bem-aventuranças, um verdadeiro tratado de compaixão e de esperança. Na sequência do texto, o Mestre nos fortalece o ânimo, valorizando-nos como o sal da terra, que não deve ser insípido a fim de não perder sua função de salgar e como a luz do mundo, convidando-nos a deixar que resplandeça nossa luz diante dos homens.  Jesus também nos alerta a respeito da hipocrisia, afirmando que se nossa justiça não exceder a dos escribas e fariseus, de modo nenhum entraremos no reino dos céus e, por fim, fala a respeito da necessidade do perdão, não apenas conciliando-nos depressa com nosso adversário, mas amando-os:1

Eu, porém, vos digo: Amai a vossos inimigos, bendizei os que vos maldizem,
fazei bem aos que vos odeiam, e orai pelos que vos maltratam e vos perseguem;
para que sejais filhos do vosso Pai que está nos céus.

 Mateus ainda nos oferece uma frase bastante provocativa no sentido de nos convidar à autenticidade e à honestidade para com nossos próprios valores e princípios:2 Seja, porém, o vosso falar: Sim, sim; Não, não; porque o que passa disto é de procedência maligna.

Mas, como poderíamos aplicar essa máxima nas dinâmicas sociais observadas atualmente? Em tempos nos quais predominam disputas, intrigas, desacordos, incriminações e discriminações, é fundamental nossa atenção para não nos deixarmos arrastar por discursos falaciosos ou pontos de vista distorcidos, segundo interesses pessoais ou de classe.

Ao seguirmos a recomendação de Jesus a respeito do sim, sim; não, não, podemos pensar que a melhor postura diante dos movimentos sociais que predominam atualmente é aquela à qual nosso pensamento está alinhado com nossos princípios e com nossas atitudes.

Dessa forma, não deveríamos nos posicionar socialmente de acordo com o comportamento de manada, para buscar o pertencimento a qualquer custo, nem tampouco deveríamos estabelecer nossas escolhas por sentirmo-nos intimidados e coagidos. Em ambos os casos poderíamos cair na tal hipocrisia denunciada por Jesus. Caber-nos-ia, portanto, como atitude autêntica e corajosa, digna do sim, sim; não, não, apresentarmos nossas opiniões, baseados nas próprias experiências e consciência crítica, sabedores da responsabilidade que temos diante do uso do livre-arbítrio e dispostos a arcar com o ônus de sermos sinceros.

Nelson Mandela, líder sul-africano, teve a coragem de manter seu não frente ao regime de segregação racial do apartheid, estabelecido entre os anos de 1948 e 1994 naquele país. Sua postura de não concordância o conduziu a quase trinta anos de prisão.

Em seu discurso, ao receber o Prêmio Nobel da Paz, demonstrou que era cônscio de seus valores e lutava por eles, de forma ousada, apresentando sua versão de sentido de vida:3

Dedicar o que resta de nossas vidas ao uso da experiência única e dolorosa de
nosso país para demonstrar, na prática, que a condição normal para a existência
humana é democracia, justiça, paz, não-racismo, não-sexismo, prosperidade
para todos, um ambiente saudável e igualdade e solidariedade entre os povos.

A postura de Mandela, ao longo de quase três décadas de reclusão, é um exemplo de um não positivo, pelos efeitos benéficos gerados em prol do bem comum, alinhado com valores universais de igualdade, liberdade e respeito.

Otto Adolf Eichmann, administrador do programa da Solução Final Judaica da Alemanha Nazista, responsável pela logística das deportações de judeus, ocorridas para os diversos campos de concentração, ao ser julgado em Jerusalém, em 1960, depois de ter sido capturado, enquanto vivia na Argentina, com falsa identidade, afirmou que a acusação que lhe imputaram, de assassinato, estava errada, conforme suas próprias palavras:4

Com o assassinato dos judeus não tive nada a ver. Nunca matei um judeu,
nem um não-judeu – nunca matei nenhum ser humano. Nunca dei uma
ordem para matar fosse um judeu, fosse um não-judeu.

Em sua tentativa de se defender, Eichmann sugeria que dizer sim a uma ordem oficial o eximia da responsabilidade perante as consequências da aplicação de tal ordem. Quando utilizamos expressões como: Fiz o que me mandaram para nos justificar frente a algum prejuízo ou catástrofe, estamos caminhando em sentido oposto à recomendação de Jesus, pois não estamos sendo honestos para com nossas próprias convicções, preferindo seguir a massa, ou ao poder dominante, talvez por medo das consequências de nos opormos a isso.

Realmente é preciso muita coragem para assumir a posição de quem é verdadeiro consigo mesmo, utilizando apropriadamente o sim, sim; não, não evangélico. Mandela disse não, mesmo correndo o risco de ser punido, como o foi, enquanto Eichmann preferiu aderir à força dominadora, por meio do sim covarde, dançando a música que seus superiores escolheram, segundo relata em seu depoimento, quando afirmou que apenas obedecia ordens.

Quando utilizamos o sim, sim para: oportunidades preciosas; ouvir empaticamente o outro; incentivar e valorizar as boas iniciativas alheias; deixar o semelhante crescer  etc., geramos progresso, harmonia e bem-estar coletivo.

Mas quando nosso sim, sim é fruto de covardia; hipocrisia; insegurança; interesse pessoal; manipulação; tentativa de agradar o outro para tirar algum proveito; então colheremos os frutos negativos de nosso mau uso do livre-arbítrio.

O mesmo se dá com relação ao uso do não, não. Quando o empregamos para estabelecer limites; apresentar nossas necessidades; ratificar nossos valores e princípios; lutar pelo bem comum, então, estamos promovendo um bem a partir de um não.

Porém, caso optemos pelo não, não, por ser mais fácil; demonstrar poder; impor nosso ponto de vista; desvalorizar o outro ou por vingança, devemos ter consciência de que arcaremos com o resultado dessa postura orgulhosa e revoltada.

Dessa forma, a fim de fazermos bom uso da advertência de Jesus:2 Seja vosso falar Sim, sim; Não, não, é fundamental que nos dediquemos à ampliação de nossas consciências no que se refere ao conhecimento:

  • de si-mesmo – relativo aos valores pessoais, conflitos, propósitos, crenças;
  • do outro – exercitando a empatia e importando-se realmente com o semelhante;
  • da vida – estando atentos ao bem comum, à fraternidade e à prática das virtudes.

Mas o que costuma nos desviar da intenção de sermos verdadeiros e autênticos? Talvez o Apóstolo Paulo nos responda essa indagação, por meio de sua própria experiência, quando em carta aos Romanos, admitia suas fragilidades, afirmando5 eu sou carnal, vendido sob o pecado, e chegava à essa conclusão, justamente porque ao se analisar, identificava atitudes nas quais não se reconhecia, afirmando, segundo suas próprias palavras, que6 o que faço não o aprovo; pois o que quero isso não faço. Paulo concluía suas reflexões admitindo que algumas vezes não era ele mesmo, conscientemente, quem agia, mas o pecado que o habitava. A frase que resume essa angústia interna é:6 porque não faço o bem que quero, mas o mal que não quero, esse faço.

Esse pensamento crítico, fundamental para o processo de autoconhecimento, é explicado por meio da Psicologia Profunda, em especial utilizando os conceitos de complexos. O psiquiatra suíço, C. G. Jung7 utiliza o termo complexo para definir um conjunto de ideias que se mantêm unidas através de uma carga emocional, comum a todas. É observado como se fosse um estado alterado de consciência, capaz de roubar o lugar do ego, assumindo o comando. O complexo é independente, automático, reativo e incompatível com a atitude habitual da consciência. O núcleo de um complexo é sempre arquetípico, e, por arquétipo entendem-se as imagens humanas universais e originárias  adormecidas no inconsciente mais profundo. Essas imagens primordiais são as formas mais antigas e universais da imaginação humana. São simultaneamente sentimento e pensamento. Têm como que vida própria, independente…8

Em outras palavras, entendemos por complexos nossas experiências passadas carregadas de emoção, registradas em nosso inconsciente e que, vez ou outra, assumem o comando de nossa vontade, levando-nos a agir de forma desconhecida por nós mesmos. Ou seja, nem sempre, ao adotarmos determinadas atitudes, estamos conscientes do que fazemos. Podemos, ao invés disso, estar sendo movidos por conflitos emocionais de nosso passado. Por isso nos confundimos dizendo sim, sim, quando conscientemente diríamos não, não e vice-versa.

Jesus é nosso exemplo máximo de pessoa consciente de Si e de tudo que acontecia ao Seu redor. Vivenciou todo tipo de experiência desafiadora: foi ofendido, criticado, provocado, acusado injustamente, torturado e condenado à morte, mas em cada um desses acontecimentos, disse e fez exatamente o que acreditava. Esteve alinhado com Seus pensamentos e valores sempre. Foi exemplo de autenticidade, exatamente porque não carregava conflitos, complexos ou pecados, como Paulo, no início de sua trajetória de transformação cristã.

Dessa forma, ao nos posicionarmos perante acontecimentos ou tendências sociais, estejamos o máximo possível conscientes, para não deixarmos que nossos conflitos pessoais falem por nós. É a melhor maneira de nos mantermos corajosos e fiéis à verdade, pois essa conduta de vida é a que nos oferece maior oportunidade de progresso espiritual, porque nos convida à consciência atenta e à autorresponsabilidade, ou seja, viveremos nossa própria vida, exatamente como Jesus viveu.

 

Referências:

1 BÍBLIA, N. T. Mateus. Português. O novo testamento. Tradução de João Ferreira de Almeida. Rio de Janeiro: Imprensa Bíblica Brasileira, 1966. cap. 5, vers. 44.

2 Op. cit. cap. 5, vers. 37.

3 MANDELA, N. Discurso: Prêmio Nobel da Paz, 1993. Disponível em:  https://www.nobelprize.org/prizes/peace/1993/mandela/26130-nelson-mandela-nobel-lecture-1993/

4 ARENDT, H. Eichmann em Jerusalém. São Paulo: Companhia das Letras, 1999. cap.  II.

5 BÍBLIA, N. T. Epístola aos Romanos. Português. O novo testamento. Tradução de João Ferreira de Almeida. Rio de Janeiro: Imprensa Bíblica Brasileira, 1966. cap. 7, vers. 14.

6 Op. cit. cap. 7, vers. 15.

7 JUNG, Carl Gustav. Estudos experimentais. Petrópolis: Vozes, 2012. p. 1350.

8 ______. Psicologia do inconsciente. Petrópolis: Vozes, 2014. p. 102 e 104.

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