Jornal Mundo Espírita

Julho de 2019 Número 1620 Ano 87

1859 – 2009: Sesquicentenário do 2.º volume da Revista Espírita, de Allan Kardec

outubro/2009 - Por Enrique Eliseo Baldovino

No período 2008-2019, teremos a bênção de comemorar, em todos esses anos, os Sesquicentenários de lançamento de cada um dos 12 excelentes volumes da Revue Spirite – Journal d’Études Psychologiques, volumes dirigidos magistralmente por Allan Kardec (de 1858 a 1869), cujos contextos históricos e sociais são diferentes em cada ano, conforme pesquisa realizada por nós neste artigo, onde desta vez abordamos o contexto geral da Revista Espírita de 1859, assim como já fizemos com a Revista de 1858 (ver o prestigioso Jornal Mundo Espírita de março de 2008: Tributo à Revista Espírita, pp. 6-7).

 

Artigos precursores da Codificação

São tantos os temas tratados na Revista de 1859, que faremos a seguir um resumo dos principais fatos acontecidos nesse ano. Uma das características que se destacam na RE (Revista Espírita) do ano de 1859 é a elaboração de vários artigos que, pelo seu relevante conteúdo doutrinário, serão incorporados – literalmente, em partes ou revisados – em todos os livros que compõem a Codificação Kardequiana.

Acreditamos, pelo exposto, que ler e estudar a fundo as páginas históricas da Revista Espírita é preparar-se para compreender muito melhor todo o conteúdo da notável Codificação, base inamovível do Espiritismo. Portanto, a leitura e a vivência dessas páginas de Luz hão de contribuir para o melhoramento dos homens, como bem o previa o emérito Codificador da Doutrina Espírita.

 

O Que é o Espiritismo

No mês de julho de 1859, um extraordinário livro introdutório é lançado em Paris pelo mestre Kardec, como o registra a RE Jul. 1859–VI: O Que é o Espiritismo – Nova obra do Sr. Allan Kardec, pp. 294-295. Sobre este encantador opúsculo, cujo sesquicentenário de lançamento estamos comemorando também neste ano de 2009, há uma reveladora informação na RE Mai. 1859–I b +: Cenas da vida privada espírita – Segunda conversa, p. 181, que vale a pena consultar.

 

Contexto sóciopolítico

Por outro lado, diversos artigos da RE de 1859 têm como contexto social, histórico e político a guerra da Itália (1859, segunda guerra de independência italiana), como por exemplo os seguintes artigos em série ou em sequência (+) que encontramos na RE Jul. 1859–III a +: Conversas familiares de Além-Túmulo – Notícias da guerra: o zuavo de Magenta (1.ª conversa – Sociedade, 10 de junho de 1859), pp. 276-281; na RE Set. 1859–III b: Conversas familiares de Além-Túmulo – O general Hoche (1) (Sociedade, 22 de Julho de 1859), pp. 364-368; na RE Set. 1859–III a +: Conversas familiares de Além-Túmulo – Um oficial do exército da Itália (2.ª conversa – Sociedade, 1º de Julho de 1859. vide a RE Jul. 1859, p. 283), pp. 362-364 etc.

Neste último artigo, e principalmente na 1.ª conversa (de 10/06/1859, p. 283) com esse oficial superior morto, na batalha de Magenta (Itália), descobrimos a identidade do célebre general X, que quando encarnado foi Ministro do Interior e de Segurança Geral – como informa Obras Póstumas – num determinado período do governo imperial de Napoleão III, período que conseguimos identificar para poder investigar o seu legado.

O general X obteve a autorização para o funcionamento legal da SPEE – Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas e, somente seis dias após a sua desencarnação na batalha de Magenta (04/06/1859), conversou mediunicamente com Allan Kardec em dois excelentes diálogos que valem a pena serem lidos e estudados. A esse respeito, ver as nossas Notas do Tradutor (N. do T.) números 116, 129 e 150 do Ano de 1859 (CEI – Conselho Espírita Internacional). (2)

 

Evocações notáveis

Na interessante seção da RE: Conversas familiares de Além-Túmulo, o Codificador teve, em 1859, diálogos memoráveis com várias personalidades de renome nacional e internacional, agora na condição de Espíritos desencarnados: Gaimard, Soulié, Humboldt, Goethe, a senhora Ida Pfeiffer, os irmãos Arago, Diógenes, Cellini, Codemberg, Poitevin, o general Hoche, Voltaire, Frederico II, Privat d’Anglemont, Swedenborg, o general X etc.

 

Em 1859, a SPEE mudou de domicílio

Na sexta-feira, 1.º de abril de 1859 – um ano depois da sua fundação –, a Société Parisienne des Études Spirites (SPEE) mudou de domicílio, saindo da Galeria Valois, nº 35 (do lado direito do Palais Royal), onde se encontrava desde 01/04/1858, para um dos salões do restaurante Douix, na Galeria Montpensier, nº 12 (do lado esquerdo do Palácio Real), onde permaneceu até 1º de abril de 1860.

Na História do Espiritismo, vale ressaltar a relevante importância deste primeiro Centro Espírita do mundo, formal e legalmente constituído em 1.º de abril de 1858, que colocará as bases doutrinárias para a formação e estrutura do Movimento Espiritista nacional e internacional, graças ao trabalho hercúleo e sabiamente organizado de Allan Kardec, que ocupou a presidência da SPEE até sua desencarnação, sempre reeleito por unanimidade.

 

Boletim histórico e raro da SPEE

Continuando com as amplas tarefas da SPEE, o incansável Codificador publicará pela primeira vez, em 1859, dentro das páginas da Revue Spirite, o Boletim da SPEE, que é anunciado no mês de julho de 1859 (pp. 274-275) e lançado em agosto do mesmo ano (p. 333). Nestes interessantíssimos Boletins foram transcritas as atas de cada sessão da SPEE (ver a N. do T. 139), cujos trabalhos realizados encontram-se historicamente registrados para a posteridade e, ao relê-los hoje, nos permitem conhecer o cotidiano da SPEE, fazendo-nos participar “ao vivo” das suas memoráveis reuniões.

Os históricos Boletins foram publicados na Revista Espírita até o mês de fevereiro de 1861, isto é, foram 16 números, num total de 105 páginas (correspondentes somente ao Boletim). Era também uma espécie de órgão interno da Sociedade, cujas páginas variavam entre quatro e doze por mês, no citado período.

 

Sonata ditada pelo Espírito Mozart

Por outro lado, um documento muito raro, e, até há pouco inédito, (2) foram incluída nas páginas desta Revista de 1859, fac-símiles que, por primeira vez, serão incorporados a um livro, resgatando assim o CEI esta peça extraordinária com a publicação da Revista Espírita de 1859 em espanhol: trata-se do Fragmento de uma Sonata, ditado pelo Espírito Mozart ao médium Brion Dorgeval (RE Mai. 1859–II: Música de Além-Túmulo, pp. 186-191), cujas partituras intercalamos nas páginas 365 a 369 (da nossa versão). Da mesma forma que a Revue Spirite e outros livros espíritas e espiritualistas, esse Fragmento de Sonata (ver as N. do T. 87, 278 e 350) foi queimado no tristemente célebre Auto de fé de Barcelona, por ordem do seu bispo Antonio Palau y Termens, na quarta-feira, 9 de outubro de 1861.

 

Contexto científico e cultural

A respeito do contexto científico e cultural do ano de 1859, fazendo uma breve linha do tempo, sabe-se que, neste mesmo ano, nasceram importantes personalidades mundialmente conhecidas, como: Pierre Curie, Conan Doyle, Zamenhof, John Dewey, Husserl, etc. Em 1859, travaram-se as batalhas de Solferino e de Magenta (2.ª Guerra da Itália). Espanha declarou a guerra a Marrocos.

Charles Darwin publicou, em 24 de novembro de 1859, “A origem das espécies” (cf. a N. do T. 316, § 2º). Marx editou sua “Contribuição à crítica da economia política”. Victor Hugo publicou “A lenda dos séculos”. O pintor Manet foi rejeitado no Salão oficial. Em 1859, o físico alemão Gustav Kirchhoff propôs sua lei de emissão de radiação térmica. Nesse mesmo ano, Maxwell elaborou a sua teoria cinética dos gases. Em 1.º de setembro de 1859, o astrônomo britânico Richard Carrington, enquanto observava as manchas solares, foi a primeira pessoa a ver uma explosão solar.

 

Contexto histórico

Então, observemos a importância do contexto geral da aparição da Revue Spirite de 1859. Neste ano faleceram as seguintes personalidades célebres, sendo que as três primeiras referidas foram oportunamente evocadas pelo nobre Codificador: Alexander von Humboldt, o general Charles-Marie-Esprit Espinasse, Alexandre Privat d’Anglemont, Washington Irving, Thomas de Quincey, Wilhelm Grimm, Peter Gustave Lejeune Dirichlet,  etc.

No ano de 1859, o físico francês Gaston Planté realizou exitosas experiências com o que se tornou a primeira bateria recarregável. Em 22 de setembro deste mesmo ano, Karl Theodor Robert Luther descobriu o asteróide nº 57 da série, que recebeu o nome de Mnemosina. Nesse ano iniciava-se a construção do canal de Suez. Romênia converteu-se num Estado nacional (cf. a N. do T. 122) em 1859. Pela primeira vez, os Estados Unidos extraíram petróleo. Neste ano, George Boole inventou o cálculo binário, que seria a base do futuro cálculo eletrônico, sendo considerado um dos precursores da informática.

 

Referências:

 (1) MUNDO ESPÍRITA. Considerações doutrinárias sobre o Espírito Napoleão I (subtítulo: O general Hoche). Artigo de Enrique Eliseo Baldovino. Março de 2009, pp. 6 e 7 (www.mundoespirita.com.br). Curitiba, PR: FEP.

 (2) KARDEC, Allan. Revista Espírita: Periódico de Estudios Psicológicos. Traduzida do original francês para o castelhano por Enrique Eliseo Baldovino, com Prefácio do Espírito José Maria Fernández Colavida, psicografado em espanhol pelo médium Divaldo Pereira Franco (pp. V- VII). 1.ª edição, 560 páginas, ilustradas (com o Fragmento de uma Sonata, ditado pelo Espírito Mozart ao médium Brion Dorgeval, nas pp. 365 a 369). Ano de 1859, volume II, com Prólogo do tradutor, Abreviaturas Remissivas de 1859, Referências Bibliográficas (220 RB) das N. do T., Índice Antroponímico, Notas do Tradutor no final da Obra (428 NT) e Notas da USFF. Brasília, DF: EDICEI (Conselho Espírita Internacional: www.ceilivraria.com.br), 2009.

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