Jornal Mundo Espírita

Setembro de 2019 Número 1622 Ano 87

127 horas – Uma lição de vida

agosto/2018 - Por Maria Helena Marcon

Dizem que um minuto apenas pode alterar o rumo de nossa existência. E é verdade. Um minuto de decisão acertada pode nos brindar com alegrias. Um minuto de distração, um minuto de descuido pode ocasionar um acidente de graves consequências. E tudo pode mudar: a nossa vida, a vida dos que vivem em nosso entorno, a vida de quem se envolveu em nosso mesmo acidente.

De um modo geral, quando nos saímos bem ou mal da situação criada, estamos enriquecidos de lições. A vida ensina, a todo momento.

O filme 127 horas é um exemplo disso. Baseado na história real do alpinista Aron Ralston, ocorrida em abril de 2003, retrata a sua alteração de conduta, após o grave problema que vivenciou.

Embora considerado bem humorado, ele era uma pessoa que não se relacionava muito bem com os demais. Costumava sair em finais de semana, sem dizer a ninguém, absolutamente ninguém, aonde iria, o que pretendia fazer, quanto tempo permaneceria distante.

Ele acreditava que ninguém precisava saber de sua vida, de suas andanças. Por isso, ao programar aquele passeio pelos canyons de Utah, nos Estados Unidos, como de hábito, a ninguém falou de seu destino.

Saiu do trabalho, preparou-se, tomou seu veículo e foi. Na noite anterior, enquanto fazia os últimos preparativos, optou por não atender à chamada telefônica de sua mãe. Simplesmente ouviu o recado que ela deixou gravado na secretária eletrônica. Afinal, ele não desejava se aborrecer e sua mãe, possivelmente, viria com aquelas perguntas de sempre. As perguntas de todas as mães, aquelas que os filhos consideram tolas e desnecessárias.

Deixando seu carro no estacionamento, começou a aventura, marcada por paisagens maravilhosas. Primeiro, um longo percurso de bicicleta, procurando superar o próprio tempo. Desde criança, aprendera a amar a natureza, e os canyons pareciam o jardim da sua casa.

Seu destino, naquele sábado, era o Blue John Canyon, no leste do Condado de Wayne, Utah. E tudo transcorria muito bem, exatamente como ele planejara. Tudo… até ele sofrer uma queda e ficar com o antebraço direito preso entre a rocha e uma pedra.

Sua luta pela sobrevivência durante os cinco dias seguintes foi marcada por memórias e momentos de muita tensão. Ninguém sabia que ele estava ali. Ninguém, portanto, o procuraria. Então, aguardar por equipe de resgate estava totalmente fora de questão.

Mesmo sua família, seus amigos, habituados às suas saídas, sem tempo previsto de retorno ou informação de local de destino, cogitariam de que ele se encontrava em perigo. Se algo viessem a pensar, seria de que ele fizera uma viagem para mais distante, detendo-se um pouco mais.

E ali estava ele, prisioneiro entre as rochas. As horas foram se tornando de uma rotina agoniante. Pouca água potável, pouca comida, dores no braço preso entre as pedras, a posição incômoda em que se encontrava…

Ele viaja, nas suas memórias, lembrando de tempos felizes, de momentos agradáveis com a família. Lembra suas namoradas e até das duas caminhantes que conheceu um pouco antes de sua queda.

As horas de tormento vão lhe dizendo da impropriedade de sua forma egoísta de viver a vida. Entre a sede, a fome, o calor, o frio, as dores vai repassando as cenas da sua própria vida. Cenas que vão lhe fazendo perceber a importância de cada momento em família. Bem se afirma que somente se valoriza o que se tem quando se perde.

E tudo passa a ter, então, uma importância capital. Exatamente, às 8h17, a cada manhã, um corvo aparece, voando nos céus. E toda manhã, às 9h30 um raio de sol o alcança e ele pode gozar das delícias daquele calor por quinze minutos.

Com sua câmera, ele grava uma especial mensagem para seu pai e sua mãe. Confessa o quanto os ama, o quanto eles são importantes em sua vida, embora diga que não tenha sabido aproveitar isso no seu coração.

Lembra que deveria cantar no casamento de sua irmã, cerimônia a que ele não comparecerá por estar detido no canyon.

Na parede do canyon, ele escreveu seu nome, data de nascimento e data da morte.

Entre lembranças, rememorações e delírios, em certo momento, ele se vê brincando e carregando um menino. É como se houvesse uma tela de projeção do seu futuro. Aquele é seu filho, ele conjetura.

Para os que cremos na imortalidade da alma, no planejamento que antecede à reencarnação, podemos crer que o Espírito que viria, posteriormente, como filho, lhe aparece para insuflar novo ânimo à luta pela sobrevivência.

Os dias penosos se somam e Aron opta por uma terrível decisão. Ele já tentara escavar a rocha, com seu canivete, durante dias, sem êxito. Ao contrário, parecia que quanto mais a tentava desbastar, mais ela apertava sua mão.

Essa é a cena de maior impacto de todo o filme. Ele força e quebra o osso do braço prisioneiro, depois, com seu canivete, entre dores terríveis, acaba por se libertar.

Durante esse procedimento doloroso, terrível, ele vê o menino, sentado na rocha, um pouco acima, sorrindo-lhe. Imagina-se a dor, ao mesmo tempo, a coragem dessa atitude. Atitude que nos remete ao instinto de conservação de que todos somos dotados. Que fazemos ou de que seremos capazes para preservar a preciosidade da nossa vida?

Exemplos desse tipo têm sido observados em situações extremas, em que a pessoa supera o frio, a fome, a dor, aguentando muito mais do que se espera de um ser humano.

Aron ainda precisou escalar uma parede de duzentos metros e caminhar mais de doze quilômetros, antes de encontrar turistas e o devido socorro.

Retornando à sua vida, ele reformula seu comportamento. Nunca mais saiu sem informar aos familiares ou amigos para onde se dirigia e qual o tempo que deveria se demorar. Isso asseguraria que, em caso de qualquer acidente, ele seria procurado, socorro lhe seria providenciado.

Essa aventura modificou totalmente sua forma de se relacionar com as pessoas, passou a lhes dar importância. Importância a cada momento vivido em família, com os amigos, com os colegas.

Na vida real, três anos depois, Aron conheceu Jéssica Trusty, com quem se casou. E, em fevereiro de 2010, nasceu seu filho Leo. Um menino, conforme ele tivera aquela premonição, lá no canyon.

Esse detalhe talvez o alpinista não tenha entendido muito bem, a não ser que tenha conhecimento das leis que regem o retorno do Espírito à vida corpórea e dos laços que existem entre os Espíritos, que reencarnam em uma mesma família ou próximos.

Mas, a extraordinária aventura lhe dissera do quanto ele era egoísta e do quanto todos nós precisamos, imensamente, uns dos outros. Também lhe ensinara o verdadeiro valor dos afetos, dos mais íntimos aos amigos, colegas, conhecidos.

Uma lição que todos os que assistimos ao filme, que retrata a autobiografia do alpinista e engenheiro norte-americano, leva a meditar.

 

Ficha Técnica:

Roteiro                                Danny Boyle

Roteirista                            Simon Beaufoy

Produtores                          Danny Boyle e Christian Colson

Diretor de fotografia           Anthony Dod Mantle

Distribuidor brasileiro         Fox Film do Brasil

Elenco                                   James Franco, Amber Tamblyn, Kate Mara

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