Jornal Mundo Espírita

Julho de 2020 Número 1632 Ano 88

Tesouro inapreciável

setembro/2018

Tomás de Kempis1 foi um suave mensageiro de Jesus, que se emboscou na roupagem carnal revestido pela condição de monge modesto, para copiar livros e mensagens que iluminaram o mundo…

Em pleno século XV, numa Alemanha destroçada, onde o poder político ultrajado perdia-se em intrigas intérminas e lutas incessantes, ele permanecia no seu mister, ao tempo em que também anotava as próprias reflexões.

Foi no silêncio da abnegação que escreveu o Imitação de Cristo, que se transformou num vade mecum semelhante à Bíblia, sendo traduzido para inúmeros idiomas, consolando dezenas de milhões de vidas através dos tempos… Ele, porém, elegera o anonimato, porque o importante era a mensagem e não o mensageiro.

O rei Luís IX2, da França, celebrizou-se pelo amor e pela sabedoria cristã, sendo considerado um dos grandes vultos da Idade Média, dedicando-se à fé religiosa e à sua vivência.

Organizou e dirigiu a oitava cruzada, vindo a desencarnar em Túnis, na África do Norte, no dia 25 de agosto de 1270, vitimado pela peste, sem haver alcançado o objetivo do empreendimento para o qual fora criado. Sua certeza a respeito da divina ajuda tornou-o exemplo de fé invencível.

Conta-se que, quando viajara por barco na direção do Oriente, uma tempestade ameaçou a embarcação em que se encontrava, provocando pânico na tripulação e em todos os presentes. Ele ajoelhou-se e orou longamente, após o que afirmou a todos, jovialmente: Coragem! Nenhum mal nos acontecerá. Sigamos em paz.

Interrogado a respeito da certeza que o dominava, redarguiu, sereno: As preces dos nossos irmãos do mosteiro de Claraval3 acompanham-nos…

…E realmente nada aconteceu à embarcação e aos seus viajantes.

Israel esperava, no esplendor do Império romano, que viesse o Messias.

Quando João, o Batista, começou a proclamar que era chegada a hora e que todos se penitenciassem, arrependendo-se e mudando de vida, muitos daqueles que o ouviam, acreditaram que, por fim, estava chegando o grande guerreiro que libertaria o povo oprimido, que estorcegava sob o tacão imperialista, transferindo-lhe a prepotência, o orgulho da raça, a glória de mentira em torno da dominação do mundo…

…E veio Jesus, simples e nobre como o lírio do campo, puro e vigoroso como uma espada nua, pregando o Reino dos Céus, aquele que é indimensional, que dispensa todos os aparatos e exterioridades.

Em razão disso, não foi aceito, porque o orgulho cego desprezava a pureza, tinha a simplicidade como miséria moral e a pobreza como condenação divina.

…Até hoje, infelizmente, embora os exemplos de exaltação dos valores espirituais, o culto ao bezerro de ouro predomina terrível, iludindo os fantasiosos que supõem não terem como enfrentar a consciência que despertará um dia.

Acreditam no poder político, agarram-se às velhas fórmulas da corrupção e do vandalismo moral, pretendendo-se uma existência física sem termo, como se a enfermidade, a velhice e a morte não os derrubasse dos pedestais da ilusão onde vivem fascinados.

Sucede que o orgulho, esse filho espúrio do egoísmo, não aceita contradita, não admite posição secundária e a postura de bondade que assume é, normalmente, um disfarce para esconder a agressividade e os sentimentos doentios que predominam no íntimo das suas vítimas.

*   *   *

Acautela-te desse morbo infeliz que destrói as belas florações do bem, do humanitarismo, da caridade…

Não lhe dês trégua onde quer que se homizie e o percebas.

Aprende a cultivar o tesouro inapreciável do amor sem jaça, que se doa sem exigência, que se sacrifica em júbilo, que constrói em silêncio.

Torna-se indispensável que treines abnegação e renúncia, e todo o bem que faças não aguardes retribuição de forma alguma.

Preserva o prazer de servir pela alegria imensa de seres útil.

Recebes o ar, o Sol, a Natureza em festa, que se renovam incessantemente, ajudando-te no crescimento para Deus. Nada te exigem e quase não lhes percebes a grandeza, a utilidade, o valor indispensável.

Acompanha o leito de humilde regato e o verás crescer suavemente, recebendo afluentes que o transformam em rio caudaloso na busca do oceano, onde mistura as suas nas águas volumosas que o absorve.

Trabalha, desse modo, confiando em Deus, e autoiluminando-te, considerando-te somente como servidor.

És importante no grupo social, porque podes erguê-lo às cumeadas do progresso, assim como dispões de mecanismos para desagregá-lo por impertinência, presunção ou primitivismo emocional.

Nunca, porém, serás insubstituível.

Reconhece as tuas fragilidades, a dimensão do teu real valor e faze o melhor que esteja ao teu alcance, sem jactância, sem presunção.

Não te permitas magoar quando os fatos não sucederem, conforme gostarias e jamais te decepciones com o teu próximo. Tem em mente as tuas próprias dificuldades e o compreenderás nos desafios que enfrentas.

Jamais coletes na mente e no sentimento o lixo tóxico do ressentimento, do ódio, da amargura, que te fará imprevisto mal.

És o que de ti mesmo fazes.

Aprende a ser feliz, amando e ajudando, de modo que esse tesouro nunca te seja retirado, antes faça-se multiplicado.

Grandioso e insuperável, o amor é o poder que não toma espaço, que não sobrecarrega, que não se desgasta.

Assim procedendo, tornar-te-ás simples e bom, crescendo em silêncio e em paz no rumo de Deus.

Não te facultes atingir pelas setas da inferioridade que ainda te ferem os sentimentos.

Esse amor sem dimensão, dilui os miasmas densos do orgulho e da loucura do ego.

*   *   *

Renasceste para conquistar a verdade adormecida no teu íntimo.

Porfia e ama.

Jesus te convidou por amor e prossegue amando-te, proporcionando o campo de ação para o treinamento da tua evolução.

Fixa na mente que os piores inimigos do ser humano encontram-se no íntimo dele mesmo, que sintoniza com as equivalentes ondas da inferioridade moral e espiritual.

Amando e renunciando, sintonizarás com a Vida Gloriosa, que é o teu fanal.

Joanna de Ângelis.
Psicografia de Divaldo Pereira Franco, na reunião mediúnica de 24 de agosto
de 2011, no Centro Espírita Caminho da Redenção, em Salvador, Bahia.

 

1Tomás de Kempis, também conhecido como Tomás de Kempen, Thomas Hemerken, Thomas à Kempis, ou Thomas von Kempen.

Monge e escritor alemão, nasceu em 1380, em Kempen, na Renânia do Norte (perto de Colônia). Desencarnou a 24 de julho de 1471, no Mosteiro de Santa Inês, próximo a Zwolle, na Holanda.

Em 1399, foi admitido no grupo Irmãos Regulares da vida em Comum que, ainda sem instalações definitivas, viviam no Monte de Santa Inês, onde iniciou uma vida de pobreza, castidade, devoção e obediência, em comunidade, tendo feito votos de noviço apenas em 1406 e, ordenado padre em 1413.

Produziu cerca de quarenta obras representantes da literatura devocional moderna. Destaca-se o seu livro, Imitação de Cristo, em quatro volumes, no qual apela a uma vida seguida no exemplo de Cristo.

2Luís IX, filho de Branca de Castela, foi coroado rei de França, em Reims, em novembro de 1226, com apenas 12 anos de idade, embora somente em 1242 tenha assumido pessoalmente o poder, tomando o nome de Luís IX.

Seus súditos o admiravam pela sua imparcialidade. Aumentou, durante o seu reinado, o poder real à custa dos nobres, que, mesmo assim o respeitavam pela sua justiça. Organizou um sistema de controle para evitar abusos administrativos e, desta forma, fortalecer o poder central.

Fez construir, em 1245/1248, a Sainte-Chapelle, em Paris e organizou a sétima Cruzada contra o Egito.

Em 1270, empreendeu nova Cruzada. Ao desembarcar em Cartago, seu exército e ele próprio foram vitimados pela peste.

Chamado de o bom rei Luís, foi considerado um soberano ideal, admirado mesmo por seus inimigos pela sua integridade.

 3Abadia de Claraval – Clara Vallis em latim,  Clairvaux em francês. Mosteiro localizado em Ville-sous-la-Ferté, no departamento de Aube, na França.

Foi fundado em 1115 por Bernardo de Claraval (futuro São Bernardo), à época com apenas 25 anos, e alguns monges vindos da Abadia de Cister (Citeaux).

Claraval foi, assim, uma das quatro fundações derivadas da Abadia principal de Cister, junto com a Abadia de La Ferté, Abadia de Pontigny e Abadia de Morimond.

Após a Revolução Francesa (1789), os seus edifícios foram convertidos em prisão em 1808, transformando-se no maior estabelecimento penitenciário francês do seu tempo. A partir de 1970, uma parte da histórica abadia deixou de abrigar presos e passou a ser aberta para visitas, recebendo também eventos culturais.

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