Jornal Mundo Espírita

Novembro de 2018 Número 1612 Ano 86

Valorização da vida

setembro/2018

O Evangelista Mateus anotou ditos de Jesus, que bem identificam o comportamento humano sobre questões cruciais da vida. O ensino vem revestido de notável roupagem de imagens marcantes e de fácil identificação com cada um de nós: Assim, todo aquele que ouve essas minhas palavras e as coloca em prática será comparado a um homem sensato que construiu a sua casa sobre a rocha. Caiu a chuva, vieram as enxurradas, sopraram os ventos e deram contra aquela casa, mas ela não caiu, porque estava alicerçada na rocha. Por outro lado, todo aquele que ouve essas minhas palavras, mas não as pratica, será comparado a um homem insensato que construiu a sua casa sobre a areia. Caiu a chuva, vieram as enxurradas, sopraram os ventos e deram contra aquela casa, e ela caiu. E foi grande sua ruína!1

O homem sensato, atento ao verdadeiro sentido existencial, construiu sua casa, sua vida e seu viver sobre a rocha, fincando seus alicerces em bases sólidas.A solidez dessa base – do seu caráter -, está conformada nas leis divinas, ínsitas nos ensinos de Jesus, consolidadas na prática vivencial de cada momento, sempre pautada nos valores formadores do Bem.

Conforme Allan Kardec2:

O verdadeiro homem de bem é o que cumpre a lei de justiça, de amor e de caridade, na sua maior pureza.

Deposita fé em Deus, na Sua bondade, na Sua justiça e na Sua sabedoria.

Sabe que sem a Sua permissão nada acontece e se Lhe submete à vontade em todas as coisas.

Tem fé no futuro, razão porque coloca os bens espirituais acima dos bens temporais.

Esses destaques fundamentam a resistência que lhe é própria diante das vicissitudes da vida – as chuvas, as enxurradas e os ventos – de modo a não se deixar abater.

Ouve os ensinos. Aprende-os. Compreende-os. Pratica-os. Realiza-os em sua vida.

A palavra realizar, filosoficamente falando, quer dizer tornar real o que não era real, era apenas realizável.

Por analogia, como o rio que tem o potencial realizável de energia elétrica, mas que ainda não é real, dependendo da ação construtiva do homem para se fazer real, os ensinos do Cristo estão postos para a Humanidade, sem nenhuma restrição, mas aguardam serem realizados pelo coração de cada um.

Não basta a intenção, somente, é preciso ação realizadora.

Se faz insensato aquele que, tendo se acercado das lições do Mestre, despreza-as, em troca das nonadas do mundo – construindo sua casa sobre a areia, sobre o insustentável, o passageiro, o impermanente, o desvalor, o desregramento. Esse, diante dos reveses na existência, sem o suporte da fé, cai em ruína emocional, tendo como conviva a depressão, o transtorno, o desespero.

Valorizar a vida é o lema. Vivenciar o Bem é o tema. Amar a vida é o compêndio da vida feliz.

*

Aproveitemos as lições colhidas com a Visão de Eurípedes3:

Começara Eurípedes Barsanulfo, o apóstolo da mediunidade, em Sacramento, no Estado de Minas Gerais, a observar-se fora do corpo físico, em admirável desdobramento, quando, certa feita, à noite, viu a si próprio em prodigiosa volitação. (…)

Envergava forma leve, respirando num oceano de ar mais leve ainda… Viajou, viajou, à maneira de pássaro teleguiado, até que se reconheceu em campina verdejante. Reparava na formosa paisagem, quando não longe, avistou um homem que meditava, envolvido por doce luz.

Como que magnetizado pelo desconhecido, aproximou-se…

Houve, porém, um momento, em que estacou, trêmulo.

Algo lhe dizia no íntimo para que não avançasse mais…

E num deslumbramento de júbilo, reconheceu-se na presença do Cristo.

Baixou a cabeça, esmagado pela honra imprevista, (…)

Ofuscado pela grandeza do momento, começou a chorar…

Grossas lágrimas banhavam-lhe o rosto, quando adquiriu coragem e ergueu os olhos, humilde.

Viu, porém, que Jesus também chorava…

Traspassado de súbito sofrimento, por ver-lhe o pranto, desejou fazer algo que pudesse reconfortar o Amigo Sublime… (…)

Mas estava como que chumbado ao solo estranho…

Recordou, no entanto, os tormentos do Cristo, a se perpetuarem nas criaturas que até hoje, na Terra, lhe atiram incompreensão e sarcasmo…

Nessa linha de pensamento, não se conteve.

Abriu a boca e falou suplicante:

 “Senhor, por que choras?”

O interpelado não respondeu.

Mas desejando certificar-se de que era ouvido, Eurípedes reiterou:

 “Choras pelos descrentes do mundo?”

Enlevado, o missionário de Sacramento notou que o Cristo lhe correspondia agora ao olhar. (…)

 “Não, meu filho, não sofro pelos descrentes aos quais devemos amor. Choro por todos os que conhecem o Evangelho, mas não o praticam…”

Eurípedes não saberia descrever o que se passou então.

Como se caísse em profunda sombra, ante a dor que a resposta lhe trouxera, desceu, desceu…

E acordou no corpo de carne. (…)

E desde aquele dia, sem comunicar a ninguém a divina revelação que lhe vibrava na consciência, entregou-se aos necessitados e aos doentes, sem repouso sequer de um dia, servindo até a morte.

 

Referências:

1 BÍBLIA, N.T. Mateus. O novo testamento: português e inglês. Tradução de João Ferreira de Almeida. Campinas: Os Gideões Internacionais do Brasil, 1988. cap. 7, vers. 24 a 27.

2 KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. 118. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2001. cap. 17, item 3.

3 XAVIER, Francisco Cândido; VIEIRA, Waldo. A vida escreve. Pelo Espírito Hilário Silva. Rio de Janeiro: FEB, 1986, cap. 27.

Assine a versão impressa
Leia também