Jornal Mundo Espírita

Setembro de 2019 Número 1622 Ano 87
Revivendo Ensino Envie para um amigo Imprimir

Vícios da imaginação

abril/2018

A faculdade criadora por excelência, especialmente nos domínios da arte, é também a que mais padece de aberrações lamentáveis.

Na formação de quase todos os nossos juízos, entra sempre ampla dose de fantasia desfigurando a realidade.

Impossibilitados de apreendermos a essência das alheias intenções, os móveis interiores que dirigem as atividades humanas em rumos tão diversos, desforramo-nos, atribuindo aos outros os processos de que lançaríamos mão se em jogo estivesse efetivamente a nossa individualidade. É assim que o mau transfere ao próximo as possibilidades de sua natureza inferior.

A operação se executa por intermédio das suposições imaginárias. Acode-lhe à mente um primeiro raciocínio impregnado desse surdo rancor instintivo que lateja ocultamente nos subalternos das almas menos evoluídas.

Por associação de ideias da mesma categoria, ele vai construindo a opinião definitiva e acaba fulminando a vítima com as erupções da maledicência satisfeita.

Assiste-se, então, a um espetáculo infeliz: a face do murmurador se acende em lumes de alegria desonesta, o olhar lampeja como num triunfo lícito e os gestos se alargam na expansão dos alívios inconfessáveis.

Esta maneira de julgar abrange a quase totalidade da espécie humana. Sinal evidente do muito que falta vencer na distância interposta entre a nossa miséria moral e os modelos de benevolência enviados à Terra para edificação dos corações endurecidos.

A imaginação sem freio, sem disciplina e continência razoável, exorbita inconvenientemente da esfera que lhe cabe e vem a ser por fim poderoso auxiliar nas desordens suscitadas pelo conflito das nossas paixões nefastas.

Até mesmo seus efeitos sobre o organismo físico chega, às vezes, a engendrar enfermidades renitentes que zombam dos melhores métodos curativos.

As grandes nevroses, geralmente, radicam nas excitações ocasionadas em centros importantes do cérebro e seus anexos pelo desregramento do poder imaginativo.

Ora, se resultados tão prejudiciais são constatados nesse plano subalterno, que diríamos encarando-os no regime das funções psíquicas?!

Para firmar noção positiva basta uma análise perfunctória efetuada na patologia do ciúme.

Quem alimenta a voracidade da desconfiança? Quem lhe empresta coloridos trágicos, sede de vingança, propósitos destruidores e funestos arrebatamentos?

Sem dúvida alguma, é a imaginação, sugerindo quadros inexistentes, falsas interpretações, aumentos em sucessos insignificantes e os cortejos de vários absurdos que arrastam o ciumento à voragem de delitos escandalosos.

Guardemo-nos, pois, de ceder aos ímpetos de  uma força – aliás aproveitável quando dirigida por intuições elevadas – mas que, na maioria das nossas contingências entra como elemento de perturbação à serenidade indispensável nas contínuas e terríveis vicissitudes desta vida.

 Vianna de Carvalho
Revista de Espiritualismo, março de 1922.

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